Três militantes curdas são executadas em Paris

Crime provoca manifestações na França; membros do PKK participavam de negociações com o governo da Turquia sobre a guerra civil na Síria

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2013 | 02h05

Três militantes curdas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foram executadas na noite de quarta-feira em uma das sedes do Instituto Curdo de Paris. O crime foi revelado ontem e provocou uma onda de manifestações de membros da comunidade curda na França. A principal suspeita é de um assassinato político, porque as vítimas participavam das negociações de paz com a Turquia e estavam envolvidas na crise síria.

Execuções similares de curdos ocorreram ao longo dos anos 80 na França, Suíça e Suécia. Desde 1987, porém, nenhuma ação do tipo foi registrada na Europa. As três vítimas foram Sakine Cansiz, Leyla Soylemez e Fidan Dogan, todas líderes políticas do PKK. Sakine, de 55 anos, também era fundadora do partido, próxima do comandante guerrilheiro Abdullah Ocalan, hoje preso na Turquia.

Os corpos foram encontrados com disparos na nuca, um sinal de execução sumária. Uma delas tinha ainda ferimentos na região do estômago. Elas estavam reunidas na sede do Centro de Informação do Curdistão - que, segundo o Estado apurou, era a sede política não oficial do PKK na França.

O partido é considerado pela União Europeia uma organização terrorista, mas vem sendo cada vez mais assediado por diplomatas do Ocidente por seu papel na revolução da Síria. A região do Curdistão se situa em territórios da Turquia, Iraque, Irã e Síria, e a população curda luta por independência há várias décadas. Nos últimos anos, porém, o PKK adotou uma nova posição, negociando autonomia administrativa de sua região no Iraque e tentando acordos semelhantes em outros países.

Com a eclosão da revolução contra Bashar Assad, na Síria, a comunidade curda do país se dividiu, mas manteve a neutralidade no conflito. Tentando atraí-los para o lado dos rebeldes sírios, a Turquia lançou um plano de paz com o PKK, cujas negociação estão em curso. Para líderes curdos ouvidos pela reportagem em Paris, os assassinatos têm um objetivo político preciso: prejudicar as discussões.

Para Sinan H., um dos líderes da comunidade curda da capital francesa, o crime foi cometido por profissionais e tem a marca de um serviço secreto. "As pistas são muitas. Pode ter sido um crime cometido por membros do próprio partido, por nacionalistas turcos que não querem as negociações de paz ou ainda por serviços secretos do Irã ou da Síria, que tentam impedir que o PKK se junte à revolução contra Assad", disse o militante. "Seja o que for, esse crime não pode prejudicar as negociações de paz, nem nos impedir de lutar pela queda do regime sírio."

Os assassinatos mobilizaram milhares de curdos em Paris, que protestaram diante do local das execuções e depois partiram em marcha gritando "Somos todos PKK" e "Turquia assassina".

Investigação. Entre os ativistas, a preocupação é a de que ocorram mais assassinatos. "Muitos de nós buscamos o exílio para viver em liberdade e segurança", disse David Kaya, nascido na Turquia. Ontem, o ministro francês do Interior, Manuel Valls, assegurou que os serviços de segurança da França trabalharão para esclarecer o caso, mas se recusou a especular sobre as motivações do crime. Em nota, o presidente François Hollande revelou ter encontrado Sakine "regularmente" e classificou os assassinatos como um "crime horrível".

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