Três perguntas básicas sobre o conflito afegão

Saída de McChrystal não deve ocultar o fato de que os EUA ampliaram envolvimento no conflito por não saber sair dele

Thomas Friedman, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2010 | 00h00

THE NEW TORK TIMES

As duras críticas do general Stanley McChrystal a seus colegas civis foram pouco profissionais e custaram-lhe o emprego. É o triste fim de uma bela carreira. Mas nenhum general é indispensável. Realmente indispensável é que, ao conduzir os EUA a um envolvimento mais profundo na guerra do Afeganistão, o presidente Barack Obama seja capaz de responder a questões mais simples: "Nossos interesses justificam a intensificação?". "Conto com os aliados necessários para chegar-se à vitória?" e "o que ganharemos se vencermos?"

Obama nunca teve boas respostas para essas perguntas, mas seguiu adiante mesmo assim. A triste verdade é que ninguém na Casa Branca de Obama queria esse reforço de tropas no Afeganistão. A única razão para terem agido assim foi o fato de nenhum deles saber como sair dessa situação - sem tampouco ter a coragem de declarar o fim dos combates.

Não se trata de motivo para afundar o país ainda mais na guerra. Sabemos que estamos em apuros quando entramos num conflito no qual o único lado cujos objetivos são claros, cuja retórica é consistente e cujo desejo de lutar nunca parece diminuir é do inimigo: o Taleban.

Obama não é um especialista em Afeganistão. Poucas pessoas são. Mas essa poderia ter sido a sua força. As duas perguntas que precisava fazer eram de uma simplicidade quase infantil. Ainda assim, não as fez, ou fracassou ao optar em seguir adiante, temendo ser tachado de fraco se não o fizesse.

Além disso, a Al-Qaeda hoje está no Paquistão - ou, pior, na alma de milhares de jovens muçulmanos desde Connecticut até Londres conectados pelo "Afeganistão Virtual": a internet. Se as células da Al-Qaeda voltarem ao Afeganistão, poderão ser enfrentadas com aeronaves teleguiadas, ou forças especiais aliadas a tribos locais. Não seria uma solução perfeita, mas a perfeição não está entre as opções.

O que quero dizer é: o presidente pode ressuscitar o general Ulysses Grant e chamá-lo para travar a guerra. Mas, quando não conseguimos responder às mais simples questões, trata-se de um sinal de que estamos num lugar onde não queremos estar e de que nossas únicas escolhas reais são perder cedo, perder mais tarde, perder muito ou perder pouco. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA DO "NEW YORK TIMES"

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