Photo for The Washington Post by Julia Rendleman.
Photo for The Washington Post by Julia Rendleman.

Três principais democratas da Virgínia podem perder governo para republicano após escândalos

Governador, vice-governador e procurador-geral sofrem pressão para que renunciem após acusações de racismo e assédio sexual

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2019 | 14h27

RICHMOND, EUA - Três democratas do alto escalão do Estado da Virgínia, nos Estados Unidos, estão envolvidos em uma série de escândalos desde a sexta-feira 1º, gerando uma crise política que pode ameaçar seus cargos e fazendo com que o presidente da Câmara local, um republicano, assuma a chefia do governo.

Na quarta, 6, o procurador-geral do Estado, Mark Herring, confessou usar blackface (prática considerada racista) durante os anos 1980. No mesmo dia, uma mulher foi a público para fazer acusações de abuso sexual contra o atual vice-governador, Justin Fairfax. E, poucos dias antes desses acontecimentos, outra imagem de cunho ofensivo à população afroamericana veio à tona envolvendo o governador Ralph Northam, que se agarra ao cargo enquanto é pressionado para renunciar até por membros do seu próprio partido. Os três são democratas.

As alegações começaram quando Herring reconheceu que ele usou maquiagem marrom e uma peruca em 1980 para se parecer com um rapper em uma festa da Universidade de Virgínia, quando ele tinha 19 anos. Ele se desculpou por comportamento “insensível” e disse que os próximos dias “deixarão claro se eu posso ou devo continuar no cargo”.

Anteriormente, ele havia pedido que o governador Northam renunciasse e estava planejando concorrer ao cargo em 2021.

Horas depois, Vanessa Tyson, uma mulher da Califórnia cujas acusações contra o vice-governador Justin Fairfax surgiram no começo desta semana, detalhou que o número 2 do governo a forçou a fazer sexo oral nele em um hotel em 2004 durante as primárias nacionais democratas em Boston.

Vanessa, uma cientista política de 42 anos de idade, bolsista da Universidade de Stanford e especialista em discurso político de abusos sexuais, disse: “Eu não tenho motivo político. Eu sou uma democrata orgulhosa.”

“O senhor Fairfax tentou me qualificar como mentirosa em rede nacional, servindo aos seus interesses políticos ambiciosos, e me ameaçou com processo”, afirmou ela. “Dadas as suas falsas afirmações, eu estou compelida a deixar claro o que aconteceu.”

Fairfax, o próximo na linha de sucessão se o governador Northam renunciar, repetidamente negou as suas alegações, dizendo que o encontro foi consensual e que ele é vítima de um esqeuma de difamação com timing estratégico. “Em nenhum momento ela expressou qualquer desconforto ou preocupação sobre as nossas interações nem durante o encontro nem durante os meses que se seguiram, quando ela permaneceu em contato comigo, nem nos últimos 15 anos”, declarou.

Vanessa afirmou que sofreu “uma humilhação e vergonha profundas” e permaneceu quieta sobre as alegações enquanto ela tentava crescer em sua carreira, mas, em 2017, com o movimento #MeToo tomando forma e depois de ver publicado um artigo sobre a campanha de Fairfax, ela levou a sua história ao jornal The Washington Post, que decidiu meses depois não publicá-la.

A Organização Nacional para Mulheres imediatamente demandou que Fairfax renunciasse, afirmando: “A história dela é assustadora, convincente e clara como o dia. E nós acreditamos nela.”

Efeito dominó

A série de escândalos que começaram quando um anuário universitário foi revelado na sexta-feira 1º com a foto racista do governador pode ter um efeito dominó no Estado da Virgínia: se Northam e Fairfax caírem, Herring pode ser o próximo na linha sucessória. Depois de Herring, é o presidente da Câmara, Kirk Cox, um republicano conservador.

No Congresso, os parlamentares ficaram pasmos com o rápido desenvolvimento dos acontecimentos. A senadora democrata Barbara Favola disse: “Eu tenho que respirar fundo e pensar sobre isso. Está acontecendo rápido demais”.

O líder dos republicanos na Câmara, Todd Gilbert, disse que seria “imprudente” comentar. O presidente da bancada afroamericana na Virgínia, Lamont Bagby, afirmou: “Nós temos muito para digerir”.

Presidente da Câmara local da Virgínia, Kirk Cox qualificou no fim da quarta-feira as alegações contra Fairfax como “extremamente sérias” e disse que os parlamentares precisam de “uma exibição completa dos fatos”. Ele exigiu que Herring “aderisse ao padrão que ele demandou dos outros”, uma referência ao pedido do procurador-geral para que o governador Northam renunciasse.

Os democratas expressaram medo de que uma reviravolta sobre o governo pudesse comprometer as chances de tomar o controle de uma legislatura dominada pelos republicanos na Virgínia. O partido fez grandes ganhos em 2017, em parte por causa da repercussão contra o presidente Donald Trump, e levou uma vantagem impressionante nas duas casas.

Ao mesmo tempo, eles têm tido uma posição firme sobre má conduta, já que as mulheres e minorias são parte vital da base eleitoral. E querem criticar o comportamento de Trump sem parecer hipócritas.

O governador Northam está sob pressão de quase todo o Partido Democrata para renunciar. Ele inicialmente admitiu que estava na foto e então negou um dia depois. Mas reconheceu que usou graxa de sapato para escurecer a sua pele e para se parecer com Michael Jackson em um concurso de dança no Texas em 1984, quando ainda estava no Exército.

Herring condenou o ato como “indefensável” e “profundamente ofensivo”. Ele disse que não era mais possível que Northam liderasse o Estado. Na quarta, contudo, ele confessou que ele e dois amigos se vestiram como rappers negros.

“Essa conduta mostra que, como um homem jovem, eu tinha uma falta de consciência e insensibilidade da dor que o meu comportamento pode causar nos outros”, afirmou. “Essa conduta não reflete de maneira alguma o homem que eu me tornei 40 anos depois.” / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.