Três séculos depois, corsários mantêm estilo

História dos piratas berberes ajuda a explicar assaltos recentes na Somália

Jeffrey Gettleman, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2009 | 00h00

Um marinheiro dos EUA nas mãos de uma tripulação de foras da lei. Algumas das rotas marítimas mais movimentadas do mundo sob ataque. Desordeiros vindos de um rincão confuso da África assediando as maiores potências. Familiar? Bem que poderia se tratar das guerras berberes, ocorridas há cerca de 200 anos, quando piratas da Costa Berbere (hoje Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia) sequestravam livremente navios europeus, exigindo resgates. "Quase não acreditei quando li a respeito dos piratas somalis. Que déjà vu", disse Frank Lambert, da Universidade Purdue, especializado na pirataria berbere. Lambert explica que a decisão de manter vivos os cativos - hoje e há 200 anos - não se deve a qualquer tipo de compaixão. Trata-se de uma estratégia para lucrar mais. Piratas só penduravam os reféns em ganchos gigantes ou os esquartejavam se eles oferecessem resistência. Os piratas berberes usavam pequenas embarcações de madeira - impulsionadas por escravos acorrentados - para atacar navios europeus maiores. Eles empregavam técnicas rudimentares, mas eficazes, como os corsários somalis de hoje, que em novembro capturaram - com um bote - um petroleiro saudita no Golfo de Áden, rota vital do Mar Vermelho. Mas a valentia dos berberes se tornou a sua fraqueza, algo a que os somalis devem atentar.Na época, o modo de agir dos piratas foi descrito da seguinte maneira: "Quando eles saltavam sobre o convés, a tripulação pirata trazia uma faca em cada mão e uma terceira entre os dentes, o que criava tamanho terror nos seus oponentes que eles se rendiam imediatamente". A citação é de Thomas Jefferson, então embaixador americano na França, depois que ele e John Adams, representante em Londres, escutaram o relato do enviado dos corsários à Grã-Bretanha. E isso sublinha um ponto central. Os piratas berberes tinham um embaixador - que se reuniu com ninguém menos do que Jefferson e Adams. Os piratas trabalhavam para Estados. Governantes berberes os recrutavam para ficar com parte do lucro. Era tudo oficial.Se um país pagasse o tributo, os piratas do século 18 deixavam em paz seus navios. Hoje, empresas de transporte marítimo gastam até US$ 100 milhões em resgates pagos aos piratas somalis, uma estratégia que preserva o conteúdo da carga, mas também atrai ao ramo dos sequestros um maior número de somalis subempregados. Se a situação de hoje lembra a do século 18, ela também nos faz concluir que o problema deva ser resolvido da mesma maneira: arrancar a valentia dos piratas ao levar o combate até as praias. Mas qualquer tentativa de acabar com redutos na Somália, como Harardhere ou Eyl, evoca o fantasma do "Falcão Negro em Perigo", quando um grupo de militantes de sandálias matou 18 soldados dos EUA, em 1993. Até que os EUA superem o trauma, e até que o mundo consiga reconstruir a Somália, há outra solução: manter distância - muita distância - das águas somalis.

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