Três vivas aos escoceses

Passei quase toda a madrugada de sexta-feira diante da TV. Por volta das 6 horas, quando a BBC prognosticou que o "não" à independência ganharia o plebiscito por mais de dez pontos porcentuais, fiquei de pé e, na solidão do meu escritório, gritei três vivas para a Escócia. Vivi muitos anos na Grã-Bretanha, que continua me parecendo o país mais civilizado e democrático do mundo, e estava convencido de que o desaparecimento do país de quatro nações teria sido uma catástrofe, não apenas para a Inglaterra e para a Escócia, mas também para a Europa, onde a secessão teria incentivado os movimentos separatistas que pululam por toda a geografia do continente - Espanha, Itália, Bélgica, França, Polônia, Letônia e vários outros.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2014 | 02h03

Além disso, se eles prevalecessem, infligiriam um golpe mortal à União Europeia e fariam com que o continente que inventou os direitos humanos, a democracia e a liberdade retrocedesse para a pré-história das tribos, das fronteiras e do isolamento cultural. A sensatez com a qual os escoceses votaram no plebiscito deveria servir para suprimir essa mobilização irracional que, no século da globalização e do lento desaparecimento das fronteiras, procura desfazer a história e enjaular os cidadãos em prisões artificialmente fabricadas pelo vitimismo, pela falsificação histórica, pela demagogia e pelo fanatismo ideológico.

Acreditava-se que, como na consulta votariam pela primeira vez os jovens de 16 anos, e como os adolescentes costumam ser propensos à novidade e à aventura, o independentismo atrairia muitos votos juvenis. Não foi o que ocorreu. As pesquisas de opinião são bastante explícitas: em quase todas as idades, a inclinação por uma e outra opção foi muito semelhante, o que significa que o realismo e seu contrário - a sensatez e a insensatez - estão equitativamente divididos no mundo dos filósofos que levaram o iluminismo à terra de Shakespeare.

A integração voluntária da Escócia com a Grã-Bretanha, há mais de três séculos, não a privou de fogo criativo próprio - intelectual e artístico - e, neste campo, sua contribuição para a cultura de língua inglesa foi enorme. Indubitavelmente, o será ainda mais agora que, como resultado deste confronto eleitoral, ganhará maior autonomia e a possibilidade de utilizar seus próprios recursos (embora, diga-se de passagem, distantes ainda daqueles de que as regiões e culturas locais dispõem na Espanha).

Estive várias vezes na Escócia, mas a visita que lembro com maior gratidão e saudade foi a de 1985, quando me foi feito o convite mais original que um escritor pode receber. O Scottish Arts Council me propôs uma fellowship criada em homenagem a Neil M. Gunn, que me obrigava a dar duas palestras, uma em Glasgow e outra em Edimburgo, e algumas entrevistas.

No entanto, no mês seguinte, foi deixado à minha disposição um automóvel que me permitiu ficar, por quatro semanas, vagabundeando por Highland, pelas ilhas e aldeias de pescadores, bosques, castelos, pousadas que pareciam fora do tempo e da história, encaixados na literatura e na fantasia mais febril.

Passei o mês lendo os romances do simpático Neil M. Gunn, como The Silver Darlings e The Silver Bough, que me lembravam muito a literatura regionalista latino-americana, na qual a paisagem era, às vezes, mais viva do que os seres humanos e cujas páginas transpiravam uma paixão ardente pelos costumes e pelos ritos ancestrais.

Conservo muito fresca na memória essa maravilhosa experiência, principalmente as pousadas familiares nas margens dos lagos, no fundo dos bosques e seus opíparos desjejuns com peixe fresco, pães recém-saídos do forno e geleias de frutas feitas pela dona da casa.

Era outubro, o outono dourava as árvores e a grama das planícies despovoadas. Como ao anoitecer começava a esfriar, a dona de uma dessas pousadas me entregou com a chave do quarto uma garrafa de água fervente para esquentar a cama.

Nunca fui muito de frequentar os pubs londrinos, mas, nesta excursão pelo interior da Escócia, visitei muitos, pela fantástica atmosfera que reinava neles e por seus fregueses que pareciam fugidos de romances góticos, sentados ao lado de lareiras crepitantes, fumando seu cachimbo e se embebedando com cerveja ácida ou uísque morno, cantando canções em um inglês que parecia (ou era) gaélico.

Nessa viagem pude visitar, em Edimburgo, a casa onde nasceu Robert Louis Stevenson. Era uma casa particular, não um museu, mas a dona, uma senhora dotada de pendores literários e muito amável, fez questão de mostrá-la para mim contando mil histórias e me convidou para uma xícara de chá com biscoitos. Na hora da despedida, ela me entregou um presente: nada menos que uma antiga edição das poesias completas de Stevenson.

Tive menos sorte com Adam Smith. Meu objetivo era levar algumas flores ao seu túmulo e o escritório de turismo, em Edimburgo, me garantiu que estava enterrado em Greyfriars Kirkyard, cemitério no qual repousa todo tipo de personalidade eminente, além de Bobby, um cachorro muito famoso porque, dizem, não se afastou um só dia, durante 14 anos, do túmulo do dono.

Passei uma manhã procurando a lápide de Adam Smith e, claro, não a encontrei, porque os ossos do ilustre pensador (que ficaria horrorizado ao imaginar que seria chamado de "economista" pela posteridade) repousam na realidade no cemitério de Canongate, ao lado da igrejinha da entrada.

Fui também a Kirkcaldy, onde Adam Smith nasceu e onde, ao longo de sete anos, ao lado da mãe, escreveu Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (1776), um período que ele recordaria como o mais feliz de sua vida. O trenzinho que me levou de Edimburgo a Kirkaldy serpenteava à beira de um mar bravio, mas fazia sol e, quando cheguei a sua cidade natal, não parecia outono, mas um alegre e luminoso dia de verão.

Smith era um solteirão muito distraído, propenso à introspecção; algumas vezes, uma diligência teve de apanhá-lo no meio do caminho porque, absorto em suas especulações intelectuais, se afastara sem perceber por várias milhas da cidade. Essa visita foi mais decepcionante, porque a casa de Adam Smith havia desaparecido fazia tempo e dela só restava um pedaço de parede com uma inscrição alusiva.

No museu de Kirkaldy - pelo que me lembro - de Adam Smith encontrei apenas um cachimbo, uma pena de ganso, um par de óculos e um tinteiro.

Várias vezes voltei à Escócia depois disso, para o Festival de Edimburgo, por exemplo, para ver peças teatrais ou dar conferências, e para a sua bela universidade, onde conheci um grande hispanista, escocês e ruivo, com quem conversei sobre o romance épico Tirant lo Blanc, que, no decorrer de um jantar, me fez essa confissão extraordinária: "Cada vez que explico Gôngora, fico excitado".

Na longa noite do plebiscito, essas e outras recordações voltaram à minha memória, acompanhadas por um sentimento de regozijo. Se, seduzidos pela simpatia inegável e os argumentos aparentemente inofensivos de Alex Salmond, o primeiro-ministro da Escócia e paladino da independência, os escoceses tivessem votado pelo "sim", teriam precipitado uma crise de tremendas consequências.

Teriam infligido um golpe de morte na Grã-Bretanha, reduzindo o poderio e a influência internacional de um dos países mais firmemente comprometidos com a causa da liberdade em todo o mundo e atiçado de maneira decisiva as expectativas soberanistas de galeses e norte-irlandeses, além, evidentemente, de impulsionar e fortalecer os que, na Catalunha, no País Basco, em Flandres, na fantasiosa Padania e na Córsega aspiram ser os primeiros entre os pequenos a ser os últimos entre os grandes e, querendo ou não, acabariam com a construção da União Europeia, fazendo-a retroceder ao seu passado fragmentário de ódios, desavenças e guerras sangrentas.

Nada disso aconteceu. Por este motivo, naquela manhã, um grande suspiro de alívio levantou o ânimo dos amantes da liberdade em toda a Europa e em boa parte do mundo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRÊMIO NO BEL DE LITERATURA

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