Tribal, Líbia é caso à parte na onda de revolta

Estado líbio não tem a coesão e a força dos vizinhos Egito e Tunísia, razão pela qual constitui um capítulo diferente nos protestos do Norte da África e Oriente Médio

Martin Van Creveld e Jason Pack, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

As revoltas que neste momento se espalham de maneira fantástica em todo o Norte da África levaram muitos jornalistas a descrever o atual levante na Líbia como um movimento alimentado por fatores semelhantes aos que atuaram na vizinha Tunísia e no Egito. Há mais diferenças do que semelhanças.

A maioria da população líbia tem menos de 30 anos e o desemprego entre os jovens é dolorosamente elevado no país. Além disso, muitos cidadãos sentem-se, com razão, frustrados por uma cleptocracia que está há 42 anos no poder, dilapida a riqueza proporcionada pelos enormes recursos da Líbia e nega-lhe a liberdade de expressão. Por outro lado, a ampliação do acesso à internet e a redes sociais permitiu que esses jovens desiludidos se organizassem de uma maneira que não pode mais ser eficazmente monitorada e reprimida pelo regime.

As principais semelhanças entre a Líbia e os seus vizinhos terminam aqui. A Tunísia e o Egito se mantiveram como Estados-nação coesos durante mais de um século. O sentimento nacional é forte, enquanto a identificação tribal se aplica apenas a uma minoria da população não urbana. Na Líbia ocorre o oposto. O país consiste em três antigas províncias do Império Otomano (Tripolitana, Cirenaica e Fezzan), gradativamente anexadas pelos colonizadores italianos desde 1911. Em 1951, foi transformado em um reino federativo independente para assegurar os interesses estratégicos britânicos e americanos na Guerra Fria.

Embora durante seus 42 anos de governo Kadafi tenha denunciado retoricamente o regionalismo, escolheu sabiamente para cercá-lo nas altas esferas do poder partidários de sua cidade natal, Sirte, e de tribos leais a ele ao redor de Sebha, onde cursou o ensino médio. Portanto, seria de esperar que esses sustentáculos do seu regime não o abandonariam agora, assim como continuaram leais quando levantes ocorridos exclusivamente na Cirenaica tiveram um caráter islâmico, em 1996 e 2006.

Sobre essa estrutura heterogênea foi construída a Líbia moderna, um Estado petrolífero com base em uma ideologia que se beneficiou maciçamente de uma década de considerável expansão econômica impulsionada por melhores relações com o Ocidente. Contudo, em razão da ideologia ultrapassada do regime, da burocracia horrivelmente ineficiente e da oposição dos interesses privados, não foram empreendidas verdadeiras reformas econômicas. Agora, parece ser tarde demais para isso e as iniciativas para reabilitar a Líbia - que renunciou ao terrorismo, abriu mão de armas de destruição em massa e tentou privatizar sua economia - foram praticamente nulas.

Neste momento de necessidade, o coronel Kadafi foi abandonado tanto por seus próprios diplomatas no exterior quanto pelos mesmos países ocidentais que o cortejaram para garantir lucrativos contratos petrolíferos. Quando vocês lerem isso, talvez ele já tenha sido derrubado e caminhe para o exílio, ou enfrente uma dura (ou não) resolução da ONU (sanções a Trípoli foram determinadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas no sábado à noite).

Os violentos confrontos que eclodiram em Benghazi, dia 16, entre as forças de segurança e os manifestantes foram motivados pelos mesmos fatores que provocaram esporadicamente o descontentamento na Cirenaica (Leste da Líbia) nas duas últimas décadas - regionalismo, tribalismo, islamismo e as injustiças do governo de Kadafi. Em seguida, veio a concepção da Líbia como o próximo alvo do despertar geral dos árabes contra ditaduras, aumentando a capacidade do movimento para recrutar adesões no interior e acabar com o prolongado predomínio dos interesses do Ocidente. Então aconteceu algo que quase todos os analistas da Líbia consideravam impossível. No dia 20 de fevereiro, os protestos até então confinados a áreas desde sempre habitadas pelos adversários de Kadafi no Leste começaram a se espalhar até a capital Trípoli, tradicionalmente pacata, no Ocidente do país.

Ventos do Egito. Historicamente, abrir o fogo contra multidões de manifestantes na Líbia servia para dispersá-los. Desta vez, o sucesso revolucionário do Egito e da Tunísia convenceu o cidadão líbio comum de que a mudança estava ao seu alcance. O regime não entendeu o significado desse momento histórico peculiar e adotou táticas ultrapassadas.

Indubitavelmente, o fato decisivo que mudou para sempre a dinâmica foi um discurso do filho do coronel Kadafi, Saif al-Islam Kadafi, transmitido na noite do dia 21 pela TV estatal líbia. Saif poderia ter acenado com novas reformas, culpado reacionários conservadores como o primeiro-ministro, Baghdadi al-Mahmudi, pela situação do país e prometido usar toda a sua influência com o pai para acabar com a violência contra os manifestantes. Em vez disso, ele usou a mesma tática de Mubarak: se não ficarem ao meu lado, vocês enfrentarão o islamismo, o separatismo, a intervenção do Ocidente e o caos total.

Embora esses argumentos sejam potencialmente válidos, o tom de Saif foi truculento e não conciliador. Seu discurso não passou de uma descarada tentativa de justificar os esforços da família Kadafi para se manter no poder por todos os meios. Menos de dez minutos depois do fim do discurso, já havia provocado o efeito exatamente contrário, unindo as multidões desiludidas do país, impelindo-as a tomar as ruas de Trípoli, causando novas mortes, e uma violenta reação da mídia contra a família Kadafi na rede Al-Jazira.

Reconhecer essa considerável mudança da dinâmica interna da Líbia não nos permitirá saber quais serão os eventos a seguir. A elite dos serviços de segurança formada pelos aliados tribais de Kadafi e velhos armamentos soviéticos conseguirão manter o controle nos bolsões da região ocidental do país? Ou o novo movimento nacional, impulsionado pelas pressões externas e pelas defecções de pessoas outrora leais ao ditador, facilitará a implosão final do regime, deixando um enorme vácuo de poder?

Ao que tudo indica, os acontecimentos dos últimos dias garantirão que a sociedade líbia se torne ainda mais atomizada. A Líbia não tem um exército profissional, não tribal, como o do Egito ou o da Tunísia, que poderia servir como força mediadora em um período de transição.

É impossível avaliar como Kadafi ou seus aliados tribais e revolucionários reagirão a acontecimentos que os pegaram totalmente de surpresa. Nos últimos 40 anos, Kadafi sobreviveu a inúmeras tentativas de assassinato, complôs internos, levantes na Cirenaica e ao bombardeio do seu quartel general pelos americanos, em 1986. No entanto, os eventos mais recentes reconstituíram o próprio tecido da sociedade líbia. Nenhum guru saberá prever como isto acabará. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É HISTORIADOR MILITAR E AUTOR DE "THE RISE AND DECLINE OF THE STATE" (ASCENSÃO E QUEDA DO ESTADO), É PESQUISADOR ESPECIALISTA EM LÍBIA DO ST. ANTONY"S COLLEGE, UNIVERSIDADE OXFORD

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