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Tribos de Faluja se unem contra a Al-Qaeda

Líderes tribais sunitas veem o grupo como uma ameaça a seu poder e população está cansada das perseguições

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

A casa do xeque Efan el-Esawi, na periferia de Faluja, 80 quilômetros a oeste de Bagdá, é guardada como uma base militar. Homens com fuzis AK-47 e fardas camufladas marrons, que identificam os combatentes do Sahawat (Despertar), guardam a estradinha de terra, que conduz a blocos de cimento como os usados nos postos de controle militares, e a uma cancela, que só se ergue depois que o carro e os ocupantes são revistados e sua entrada é autorizada pelo rádio.

No pátio que circunda o casarão, estão cinco caminhonetes de patrulha, quatro jipes e uma BMW blindada. "Presentes do Bush", sorri um jornalista iraquiano. A ideia de unir as tribos para enfrentar a Al-Qaeda nasceu em Faluja, numa reunião de líderes tribais depois do assassinato de um xeque por militantes, em 2006. "No início, poucas tribos participavam", recorda Esawi, de 37 anos. "As pessoas tinham medo. Não conseguiam dizer "não" à Al-Qaeda." Hoje, as dez tribos de Anbar, província de maioria sunita no oeste do Iraque, integram o Despertar.

No começo, eles não contavam com a ajuda americana, pelo contrário: "Nosso problema eram os EUA, porque eles não distinguiam entre Al-Qaeda, resistência (à ocupação americana) e Sahawat", diz Esawi, atingido na coxa por um disparo de um soldado americano e detido três vezes. "Pensavam que estávamos contra eles." Até que o xeque Abdul Sattar Abu Risha, neto de um líder da revolta iraquiana contra a ocupação britânica nos anos 20, teve uma reunião com um coronel americano em novembro de 2006, e explicou que ambos tinham um inimigo comum. Abdul Sattar acabou morto num atentado da Al-Qaeda em 2007, e substituído por seu irmão, Ahmed, líder do partido sunita Conselho Despertar do Iraque (CDI).

Líderes tribais sunitas identificaram a Al-Qaeda como uma ameaça a seu poder local, e a população cansou-se das perseguições do grupo terrorista. "A Al-Qaeda não persegue só xiitas, mas também sunitas que não a apoiam. Não aceita que trabalhem para o governo ou para a imprensa. Sua atitude é "ou está conosco ou com eles"", explica Hamid Nasser, de 33 anos, que faz doutorado sobre as tribos iraquianas na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris. Como parte do plano de retirada americana, o governo iraquiano herdou o convênio com o Sahawat, que reúne 100 mil homens em todo o país.

Segundo Nasser, há uma demanda do movimento de ser incluído na folha de pagamento do Estado. Esawi estima que 30% do efetivo poderá ser incorporado às Forças Armadas e à polícia. "Ou elas é que se incorporarão a nós." Os restantes 70% continuarão no Sahawat.

Apesar da parceria com os EUA, Efan el-Esawi, que comanda 3 mil homens do Despertar em Faluja, não esconde seu apreço pela resistência contra a ocupação americana. "A resistência é formada por cidadãos honestos que defendem sua pátria", disse o xeque, candidato a deputado pelo Conselho Despertar do Iraque. "É um direito legítimo." Já a Al-Qaeda "é um movimento terrorista, que mata inocentes em nome do Islã".

Esawi teve 57 parentes mortos pela Al-Qaeda, incluindo sua mãe. "Tenho relação com os americanos e amigos na resistência", admitiu Esawi. "Eu os respeito." O pai de Esawi foi morto por baathistas em seu exílio no Egito e ele teve de se exilar na Arábia Saudita por sua oposição ao regime do ditador Saddam Hussein. Mesmo assim, Esawi considera o Partido Baath melhor do que os grupos que hoje governam o Iraque, liderados pelo primeiro-ministro xiita secular Nuri al-Maliki e pelo clérigo xiita radical Ammar al-Hakim: "Os baathistas são mais justos."

Os sunitas de Faluja, a Al-Qaeda e outros grupos insurgentes, parecem num fogo cruzado permanente. Em uma loja de automóveis, dez homens contaram ao Estado histórias de perseguição da Al-Qaeda e de milicianos xiitas. Um deles contou que seu irmão, oficial da polícia, foi morto pela Al-Qaeda há dois meses, ao sair de uma mesquita. Outros dois foram mortos em 2007. Ele acredita também estar na lista.

Outro homem disse que seu irmão de 15 anos foi morto em 2006 pelo Exército Mehdi, do clérigo xiita Moqtada al-Sadr. Eles acusaram forças ligadas a Maliki de realizar execuções sumárias. "Desde 2004 estamos excluídos do recrutamento pelo Exército", disseram eles. "Só recrutam no sul (de maioria xiita)." O Iraque, para muitos sunitas, não é mais o seu país.

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