Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Tribuna contra o império ou Praça Barack Obama

Inaugurado em 2000, centro para manifestações ao ar livre em Havana foi construído para provocar os Estados Unidos

Rodrigo Cavalheiro, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2014 | 02h01

HAVANA - No Malecón de Havana, o calçadão à beira-mar no qual os cubanos costumam beber, tocar e dançar no fim de tarde, uma ampla praça com 138 mastros chama a atenção na altura do bairro Vedado.

Trata-se da Tribuna Anti-imperialista José Martí, espaço reservado a atividades culturais, sociais e cívicas - preferencialmente ofensivas aos EUA. O lugar foi construído diante da Seção de Interesses Americanos na ilha, um edifício marrom sóbrio e cercado pelo policiamento típico de uma embaixada do país.

Embora não se destaque pelo apuro arquitetônico, o lugar atrai turistas pelo tom provocativo. No meio da estrutura, há uma estrela desenhada com uma das pontas voltada para a sede. Em ocasiões especiais, 138 bandeiras são erguidas e cobrem a visão dos funcionários americanos para Havana Vieja, centro histórico da cidade.

O número é uma referência "às vítimas do terrorismo americano", especialmente as 73 mortas em 1976 na derrubada de um avião da empresa Cubana de aviação. O principal acusado de colocar uma bomba na aeronave, Luis Posada Carriles, estava sob custódia dos EUA quando as bandeiras foram erguidas pela primeira vez, em 2006.

O local foi inaugurado em 2000 com os protestos multitudinários pela volta de Elián González, que aos 6 anos chegou aos EUA sem a mãe, morta na travessia em um barco que naufragou em novembro de 1999. Após uma disputa judicial entre o pai e a família da mãe em Miami, ele regressou à ilha em junho de 2000. Elián é líder da Juventude Comunista e tem privacidade garantida pelo governo.

Os EUA esperam reabrir a embaixada em até seis meses. O prazo foi dado pelo embaixador Jeffrey DeLaurentis a líderes da dissidência cubana na quarta-feira, neste mesmo prédio, duas horas após o anúncio pelos presidentes. Não está claro se a praça manterá o nome depois que os países decidiram restabelecer relações diplomáticas. "Acho que agora deveria se chamar Tribuna Barack Obama, ou Tribuna Capitalista", sugeriu o mexicano José Luis Preciado, de 25 anos, que visita a ilha com dois amigos.

Cubanos se acostumaram tanto ao nome que não veem sentido em mudá-lo. "Tem de seguir igual, ora", disse com firmeza a economista Teresa Mena, de 49 anos, crítica da política dos EUA, mas favorável aos negócios com o vizinho. A dona de casa Iris González, de 32 anos, mostrou-se indiferente. "Não me dá frio nem calor."

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