Tribunal da ONU condena Charles Taylor

Ex-presidente da Libéria é considerado culpado por crimes de guerra e contra a humanidade

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h07

Charles Taylor, ex-presidente da Libéria, foi condenado ontem por atrocidades cometidas em seu país e na vizinha Serra Leoa. Foi a primeira vez que um tribunal internacional concluiu um processo contra um ex-chefe de Estado por crimes de guerra e contra a humanidade.

A decisão foi comemorada por ativistas dos direitos humanos como um marco no combate à impunidade, mas denunciada por parte dos africanos como uma nova forma de colonialismo. O Tribunal Especial da ONU para Serra Leoa acusou Taylor de instigar a guerra e de armar guerrilhas que usavam crianças como soldados, promoviam mutilações, escravizavam milhares de pessoas, cometiam estupros e realizavam execuções.

Os juízes concluíram que ele é culpado de todas as 11 acusações. A pena será anunciada no fim de maio. Entre as provas que condenaram Taylor estavam mais de mil crianças marcadas nas costas com as letras RUF (sigla em inglês da Frente Revolucionária Unida, nome da milícia apoiada por Taylor). A milícia infantil era responsável pela maioria dos casos de amputações de pernas e de braços de opositores capturados.

Diamantes. Segundo o tribunal, Taylor instruiu a RUF a conquistar e controlar áreas de produção de diamantes em Serra Leoa. Em troca das pedras, ele continuaria a fornecer armas. Para os juízes, ele sabia dos crimes cometidos pela guerrilha.

Em 1989, Taylor liderou a rebelião que detonou a guerra civil e deixou 100 mil mortos na Libéria. Dois anos depois, ele apoiou a guerrilha contra o Exército de Serra Leoa, começando uma outra guerra que matou 75 mil pessoas. Um acordo selou a paz em 1995. Dois anos depois, Taylor assumiu a presidência da Libéria. Em 2003, ele foi indiciado e fugiu para a Nigéria, mas acabou entregue ao tribunal três anos depois.

A ONG Human Rights Watch lembrou que foi a primeira vez que um ex-chefe de Estado foi julgado e considerado culpado desde que o Tribunal de Nuremberg condenou Karl Dönitz, militar que assumiu a Alemanha após o suicídio de Adolf Hitler. O Tribunal da ONU para a ex-Iugoslávia estava próximo de condenar Slobodan Milosevic, mas o ex-presidente sérvio morreu antes da conclusão do julgamento.

No entanto, na África, a condenação foi recebida com desconfiança. Os tribunais da ONU ainda são vistos com suspeita no continente e muitos questionam o motivo pelo qual todas as pessoas até hoje investigadas pelo Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, são de origem africana.

Muitos membros da União Africana exigem que a corte, criada para julgar apenas indivíduos, também investigue crimes cometidos no Iraque, na Chechênia e no Tibete.

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