Tribunal internacional indicia líder do Khmer Vermelho

Kang Kek Ieu é acusado de crimes contra a humanidade pela morte de 16 mil pessoas em centro de torturas

Agências internacionais,

31 Julho 2007 | 11h05

O diretor do principal centro de torturas do Khmer Vermelho, onde morreram pelo menos 16 mil pessoas, foi acusado de crimes contra a humanidade nesta terça-feira, 31, pelo o tribunal internacional organizado pela ONU para julgar as ações do regime do Khmer Vermelho, onde morreram cerca de 1.7 milhões de pessoas.   Kang Kek Ieu, mais conhecido como "Duch", seu nome de guerra, estava preso desde 1999 à espera da instalação do tribunal que a ONU e o governo do Camboja organizaram para julgar os ex-chefes do Khmer Vermelho por genocídio e crimes contra a Humanidade.   Recah Sambaht, porta-voz das Câmaras Extraordinárias dos Tribunais do Camboja (nome oficial da corte internacional), confirmou à imprensa a transferência do acusado.   "Duch" nunca fez parte da cúpula do Khmer Vermelho. Porém, dirigiu a Polícia secreta e foi encarregado do centro de interrogatórios Tuol Sleng, na capital.   A transferência do réu é o passo mais importante para a realização do esperado julgamento. O governo espera fazer justiça para as vítimas do regime do Khmer Vermelho, e assim fechar uma das páginas mais terríveis da história moderna do país.   Não se sabe até que ponto o julgamento levará em conta o depoimento do acusado. Alguns médicos que examinaram o réu após sua detenção diagnosticaram transtornos mentais.   Segundo eles, "Duch", que renunciou a seu passado e abraçou o cristianismo, acredita agora que é São Paulo e que recebeu a missão de propagar a palavra de Deus.   Da lista de possíveis acusados, somente "Duch" figurava como candidato certo ao banco dos réus. O líder histórico do Khmer Vermelho, Pol Pot, o "irmão número um", morreu em 1998.   No ano passado, o último chefe militar da organização, Ta Mok, o "Carniceiro", também morreu, na prisão.   Alguns antigos dirigentes da cúpula dessa organização maoísta, como Khieu Shampan, Nuon Chea e Ieng Sary, abandonaram as armas na década passada, em troca de uma anistia. Eles vivem a sua velhice como cidadãos livres.   Memória do massacre   Tuol Sleng, um instituto de Phnom Penh transformado em centro de detenção e torturas, chamado oficialmente de S-21, é hoje um museu. Ele guarda, entre pilhas de caveiras, o testemunho dos horrores do regime do Khmer Vermelho.   A única mulher que passou por ali e sobreviveu, Chim Math, de 49 anos, rompeu este mês seu longo silêncio. Ela se tornou testemunha de acusação.   Segundo seu depoimento, "Duch" nunca se dirigiu diretamente a ela, mas presenciou os interrogatórios nos quais foi torturada para confessar sua ligação com uma rede de espionagem estrangeira, uma obsessão generalizada do Khmer Vermelho.   "Através de buracos na parede da minha cela, via as torturas, e os corpos sendo descartados como se fossem lixo. Jamais esquecerei o cheiro dos excrementos dos porcos misturado com o de sangue humano", disse Math.   A testemunha sobreviveu duas semanas no S-21. Depois foi transferida à penitenciária de Prey Sa'ar, de onde fugiu para as montanhas do Camboja. O tribunal internacional conta com um orçamento de US$ 56 milhões. As primeiras audiências estão previstas para 2008.

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