Tribunal Penal joga Europa contra os EUA

Entre todas as divergências que opõem permanentemente os países europeus (e, às vezes, a União Européia) aos americanos, surge uma nova: o comportamento em relação ao Tribunal Penal Internacional (TPI), que tem como missão citar, perante a justiça internacional, os militares que venham a cometer crimes de guerra durante um conflito. Desde o início, todos os europeus aceitaram essa jurisdição internacional, mas os americanos se mostraram reticentes no começo e, em seguida, furiosos. Por que motivo? Eles queriam que os soldados americanos engajados em conflitos europeus não fossem submetidos à jurisdição daquele tribunal. Para os europeus, essa exigência dos americanos pareceu exagerada e, muito irritados, não viram por que os soldados americanos desfrutariam de uma imunidade diante do Tribunal Penal Internacional. As posições dos dois campos - Estados Unidos e Europa - encontram-se bloqueadas. Além disso, Washington tenta abrir uma brecha no bloco europeu, não fazendo pressão sobre os quinze países da União Européia, mas fundamentalmente voltando-se para países da Europa que ainda não fazem parte da União, mas que nela tentam entrar - os dez candidatos à União Européia, da Letônia à Romênia. Portanto, sobretudo, países do ex-bloco soviético. Como os americanos agem para alcançar seu objetivo? Sete desses candidatos à União Européia são também candidatos à Otan (Romênia, Bulgária, Eslovênia, Eslováquia e os três países bálticos). Os sete países esperam ser aceitos na Otan, durante a próxima reunião de cúpula desse órgão, em novembro, a ser realizada em Praga. Portanto, os Estados Unidos comunicaram a esses sete candidatos que eles tinham todo o interesse em aceitar as regras decretadas por Washington - particularmente a adesão a um acordo hostil a esse famoso tribunal internacional, o Tribunal Penal Internacional. Ora, um país já cedeu às demandas americanas. Trata-se da Romênia. Quando os europeus souberam da decisão romena, sentiram-se ofendidos. Desse episódio, tiraram a seguinte lição: a Romênia prefere ser integrada rapidamente - dentro de poucos meses - à Otan, do que ser admitida daqui a cinco ou seis anos na União Européia. Cólera em Bruxelas. E as autoridades européias suplicaram aos outros candidatos à União Européia para não seguirem o exemplo danoso da Romênia. É possível compreender a ansiedade de Bruxelas: se o exemplo romeno se mostrar contagioso, todos os alicerces da ampliação da União Européia serão demolidos. O comportamento da Romênia pode ser melhor compreendido quando se sabe que sua candidatura à Otan não se encontra em seus melhores dias: esse ex-país comunista e muitos outros fracassaram totalmente em sua tentativa de entrar no sistema ocidental: a economia está em ruínas. A corrupção é desestimuladora. A antiga e terrível polícia dos tempos comunistas, a Securitate, continua estabelecida e mais venenosa do que nunca. Em outras palavras, as chances de a Romênia se integrar à Otan são mínimas: por isso, explica Bruxelas, os romenos traíram a causa da Europa, na esperança de utilizar o conflito virulento que opõe a Europa e os Estados Unidos no TPI, para participar do jogo dos mais poderosos, os Estados Unidos, e obter seu tíquete de entrada para a Otan. A Romênia faz um jogo perigoso: ao tentar jogar os Estados Unidos contra a Europa, a Romênia se distanciou muito das amizades de que desfrutava na Europa.

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