Triciclo-bomba mata 7 e fere 14 no oeste chinês

Governo prende uigur suspeito de ter causado explosão na Província de Xinjiang; autoridades ainda não afirmaram se ato foi terrorista ou separatista

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Pelo menos 7 pessoas morreram e 14 ficaram feridas ontem na explosão de uma bomba em Xinjiang, província do oeste da China que registrou no ano passado um dos mais graves conflitos étnicos do país entre muçulmanos uigures e chineses han.

A explosão ocorreu em Aksu, onde os uigures são pouco mais de 70% da população. A cidade está localizada a 650 quilômetros da capital Urumqi e a 60 quilômetros da fronteira da China com o Quirguistão.

Muçulmanos, os uigures cumprem o Ramadã desde o dia 11. O governo chinês anunciou ontem a prisão de um uigur, suspeito de ter deixado o triciclo com a bomba no meio da multidão. A explosão ocorreu às 10h30 locais, quando as pessoas iam para o trabalho - a China adota um mesmo fuso para todo o território, o que faz com que os habitantes do oeste "atrasem" seus relógios em duas horas para se aproximar do ritmo de Pequim.

De acordo com autoridades locais, a maioria das vítimas era uigur. A polícia confirmou que a explosão foi um atentado, mas até a noite de ontem não o havia classificado como um ato terrorista ou separatista.

"O desenvolvimento de Xinjiang não será afetado por um pequeno grupo de pessoas más", afirmou a porta-voz do governo local, Hou Hanmin. No entanto, ela ressaltou que só a investigação policial poderá dizer se a explosão foi ou não um ataque terrorista. O Centro para Direitos Humanos e Democracia, com sede em Hong Kong, afirmou que a lei marcial foi imposta em Aksu e vários militares ocuparam a cidade.

Há pouco mais de um ano, 197 pessoas morreram e 1.700 ficaram feridas em confrontos entre uigures e chineses han - etnia à qual pertencia a maioria das vítimas. Quase mil pessoas foram presas nas semanas que se seguiram ao conflito e pelo menos 25 foram executadas ou receberam penas de prisão perpétua sob a acusação de terem participado das agressões.

Pequim sustenta que há na região um movimento separatista, apoiado por uigures que defendem a criação de um Estado independente. Habitantes originais de Xinjiang, os uigures têm língua e costumes próprios e são considerados por Pequim como uma das "minorias étnicas" do país.

Entidades de defesa dos direitos humanos afirmam que o governo utiliza o separatismo como pretexto para aumentar a repressão e o controle sobre os cidadãos uigures de Xinjiang. O governador a província, o uigur Nur Bekri, afirmou que autoridades chinesas enfrentam ameaça constante na região.

Nur é uigur, mas quem manda mesmo na província é o secretário-geral do Partido Comunista, que sempre é um chinês han, maioria étnica que governa a China. Em abril, Pequim afastou do posto o linha-dura Wang Lequan, que dirigiu Xinjiang por quase 15 anos e estava no comando durante os conflitos étnicos do ano passado. Seu sucessor é Zhang Chunxian, que restabeleceu o acesso à internet na província e anunciou que os candidatos a cargos públicos na região deveriam falar de maneira fluente a língua local e o mandarim.

Uma das principais fontes de ressentimento dos uigures contra o domínio chinês é o fato de os servidores públicos de Xinjiang nem sempre dominarem a língua local, falada por quase metade da população. Além disso, descendentes de moradores ancestrais da província eram preteridos em concursos públicos pelos recém-chegados chineses han, que dominam o mandarim.

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