Orlando Sierra/AFP - 3/12/2019
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Mario Vargas Llosa
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Trinta anos

O jornalismo significa liberdade, criticar o que nos parece ruim e elogiar o bom

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Há mais ou menos 30 anos, comecei a publicar minha coluna Pedra de Toque, no jornal El País. Joaquín Estefanía, que era o diretor do jornal na época, lembra que, para provar seu espírito tolerante, minha primeira colaboração foi um elogio a Margaret Thatcher, e lembra também o café da manhã no Hotel Palace, quando ele, minha agente literária e amiga muito querida, Carmen Barcells, e eu, celebramos o acordo. 

A Joaquín e os seis diretores que tive nessas três décadas em que, acredito, nunca falhei ao meu compromisso, desejo agradecer por jamais terem cortado um artigo ou um título, nem sugerido um tema para eu discorrer. O título da coluna, Pedra de Toque, eu havia criado antes, quando escrevia para o jornal Expreso, ou a revista Caretas, de Lima, porque era fascinado por essa pedra medieval que, até hoje, não sei se é real ou fantástica que estabelecia a qualidade dos metais.

Escrever no El País era uma aspiração secreta que eu tinha desde que o jornal foi criado, em 1976, dirigido por Juan Luis Cebrián, muito jovem então, que foi para mim a verdadeira transição na Espanha. Como eram velhos e antiquados os jornais nos tempos da ditadura! Havia jornalistas excelentes, mas a imprensa, no seu formato, suas manchetes e, em geral, sua composição e a severíssima censura, era dos tempos de Matusalém. 

O lançamento de El País foi uma revolução em termos de diagramação e composição, e sobretudo porque nele escreviam pessoas de esquerda (algumas de extrema esquerda) como também centristas e liberais, com liberdade total, discutindo tudo o que ocorria no país e na Europa com ideias modernas e, geralmente, numa prosa boa e funcional. O jornal se converteu num símbolo retratando as grandes transformações vividas na Espanha; reproduziu todas elas, alcançando um prestígio internacional que, me parece, nenhum jornal espanhol tivera antes, nem depois.

Graças a este jornal e ao acordo que firmamos, minhas colunas começaram a ser publicadas em todos os países da América Latina, incluindo o Brasil, e também em alguns países europeus e nos Estados Unidos, como La Repubblica, de Roma, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, de Frankfurt, e o New York Times. Diante desse pluralismo, meus artigos evitavam temas locais e tiveram sempre - bom, sempre é uma palavra por demais ampla - orientação internacional. 

O que gostava é que podia escrever de tudo e a respeito de tudo: artigos políticos, mas também notas de viagem, resenhas de livros, lembranças da juventude e da infância, o universo inteiro. Durante muitos anos escrevi aos domingos e depois - não sei porque mudei - às quartas-feiras. Em geral, meus artigos me tomam uma manhã e uma tarde e há anos, antes de publicá-los, peço para três amigos lerem. Eu vivia em Londres e embora levasse um dia inteiro para escrevê-los, pensar neles era inevitável durante minhas corridas e mais tarde também nas minhas caminhadas no Hyde Park, no parque do Luxemburgo, em Paris, e no Malecón de Barranco, em Lima, ou no Central Park, em Nova York.

Sempre os escrevi levando em conta a opinião de Jean-François Revel, segundo qual os bons artigos são aqueles que desenvolvem uma única ideia, e a frase com que, segundo dizem, Raimundo Lida iniciava suas aulas em Harvard: “Lembrem que os adjetivos foram feitos para não serem usados”. Era argentino e conhecia a maldita propensão que nós, latino-americanos, temos a usá-los. 

Mas também corria e caminhava pelas manhãs buscando títulos. Ninguém imagina a facilidade com que escrevo esta coluna quando tenho de antemão um título que resume suas ideias, e vice-versa, as dificuldades que enfrento para escrever quando não tenho um título já previsto. E nada me alivia e exalta tanto quando estou submerso num romance, como escrever artigo.

A influência que os existencialistas franceses tiveram na minha adolescência, especialmente Sartre, foi enorme. Tanto que meus amigos Luis Loayza e Abelardo Oquendo me apelidavam de “sartrezinho audaz”. Muitas das coisas em que acreditava graças aos existencialistas agora evaporaram e chego até a detestá-las, mas não a ideia sartreana de que o escritor deve se comprometer a se engajar e não se perder na fantasia, procurando a luta ideológica e política aqui e agora. 

Não me importa, e acho muito justo que existam escritores que não deem importância aos problemas sociais, mas não é o meu caso, sempre acreditei no “compromisso” de escritor e isso esteve representado em toda minha vida no jornalismo, que comecei a praticar quando tinha 16 anos no La Crónica, de Lima, e continuei exercendo em jornais, rádio, televisão e provavelmente morrerei praticando.

O jornalismo significa liberdade, criticar o que nos parece ruim e elogiar o bom, embora as noções de bom e ruim mudem radicalmente de uma pessoa para outra. Enquanto houver essa diversidade na imprensa, um país é uma nação livre, e quando as coisas começam a ser ocultadas, ele deixará de ser livre. 

É verdade que as fake news alteraram esse panorama, mas o jornalismo livre as combaterá cada vez melhor até confiná-las no recôndito reservado para as coisas excepcionais ou ridículas. Leio três jornais diariamente, consulto detalhes no computador. Mas, em geral, não gosto de telas, salvo para assistir a uma partida de futebol ou ver filmes. No caso das notícias e opiniões, e sobretudo da literatura, prefiro o papel.

Com o que vi e li em todos os meus anos de vida - em março completarei 85 - fiquei convencido de que o maior desafio para a democracia, o comunismo, está morto e enterrado e sobrevive apenas em países falidos, como Coreia do Norte, Cuba e Venezuela. Agora, os maiores inimigos da liberdade são o populismo e a infinita corrupção. E, pela primeira vez na história, os países podem escolher ser pobres ou prósperos, não importa o seu tamanho ou se possuem recursos ou não. Mas escolher ser próspero não é nada fácil. Há uma transição dificílima e traumática para um capitalismo limpo, como o de alguns países asiáticos: no Chile, onde coloquei tantas esperanças, tudo parece ter ido para o inferno. 

Tampouco a fórmula seria o capitalismo putrefato da Rússia ou da China, de empresários que enriquecem engolindo calados o que o poder ordena. Mas a Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura mostram que a prosperidade aproxima a democracia, em vez de afastá-la. Minha grande decepção nestes anos tem sido Israel, que eu tinha como exemplo para o mundo subdesenvolvido. 

Os israelenses, é verdade que com ajuda internacional, converteram num país moderno e livre o que antes era um deserto. Mas agora Israel se tornou um país dominador e abusivo, que asfixia cada dia mais os palestinos e com um governante, Netanyahu, um verdadeiro delinquente, que se aferra ao poder para não ir para a prisão. Sempre disse que o único país no mundo onde me sentia ainda de esquerda era Israel. Agora, nem ali.

Trinta anos são muitos anos, mas não pretendo me aposentar. Se for aposentado à força terei de me conformar. Minha esperança é que eu consiga encontrar sempre algum jornalzinho misericordioso que aceite minhas Pedras de Toque, em que defendo as coisas sobre as quais certamente irei mudando em função da história que está se desenvolvendo, até o final. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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