Trinta eleições na Europa, uma crucial

Europeus escolhem membros do Parlamento Europeu e o presidente da Comissão Europeia, mas o que importa mesmo é votação na Ucrânia

TIMOTHY GARTON ASH*, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2014 | 02h01

Até domingo serão realizadas na Europa 30 eleições: 28 nacionais para o Parlamento Europeu, uma para toda a União Europeia, na qual será escolhido o chamado Spitzenkandidat, que presidirá a Comissão Europeia, e as eleições presidenciais da Ucrânia. Em seu conjunto, elas desenham o mapa de um continente desordenado.

A não ser que as pesquisas de opinião estejam erradas, as 28 eleições nacionais produzirão uma forte votação para uma série extremamente variada de partidos que expressam uma tendência à oposição, desde o Ukip, da Grã-Bretanha, ao Jobbik, da Hungria, a Frente Nacional, da França, ao Syriza, na Grécia. A maioria está na direita xenófoba, embora não se possa dizer o mesmo do Syriza ou do Movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo, na Itália. A única coisa que eles têm em comum é o fato de serem "contra". Contra a ordem estabelecida, contra os partidos tradicionais, contra a UE como ela é atualmente.

Contra o desemprego, na esquerda e na direita. Contra a imigração, principalmente na direita. Contra o tédio, também - a maioria dos políticos europeus convencionais se entedia com a atmosfera de Bruxelas. Esses partidos receberão uma forte votação porque exprimem a indignação e a decepção de muitos europeus. As pessoas acham que, num sentido ou no outro, sua vida piorou, que a própria União Europeia se tornou parte do problema e não da solução.

Segundo a pesquisa do Eurobarômetro, a confiança na UE, em todos os seus países-membros, caiu de 50%, no fim de 2004, para 31%, no fim do ano passado. Embora uma pesquisa recente do instituto Pew tenha mostrado um ligeiro aumento da porcentagem favorável à UE, também constatou que dois terços dos cidadãos do bloco estão convencidos de que suas vozes não têm o menor peso e a UE não compreende as suas necessidades. O comparecimento às urnas nas sucessivas eleições ao Parlamento Europeu vem declinando desde 1979, enquanto a desconfiança cresce significativamente. Contudo, pelo Tratado de Lisboa, o organismo terá mais poderes do que antes. Em termos formais, a maior parte das ações empreendidas pela UE, agora, exige a aprovação do Parlamento.

Os defensores da Europa têm uma resposta lógica a esse problema: a necessidade de mais democracia. Daí o conceito que o termo Spitzenkandidat exprime na maioria das línguas europeias: os principais candidatos à presidência da Comissão Europeia, que representam os principais grupamentos de partidos políticos de toda a UE. Vocês assistiram ao debate exibido na Eurovision no dia 15? Vamos, surpreendam-me. Mesmo? E vocês conseguiram ficar acordados?

Digam o que quiserem do Festival da Canção da Eurovision: a encenação é espetacular e as sensuais falsas camponesas polonesas e a drag queen austríaca, Conchita Wurst, são muito engraçadas. É difícil acreditar que foi a mesma Eurovision que produziu esse programa tedioso, debaixo de um dossel de pano azul que parecia ameaçar despencar a todo momento sobre os concorrentes. A candidata Verde, Ska Keller, com seu estilo eficiente, destacou-se visualmente dos homens de terno, mas, depois, ela começou a falar coisas como: "Infelizmente perdemos a chance no último Quadro Financeiro Plurianual".

Quem pensa que a combinação de Spitzenkandidat e a concessão de mais poder ao Parlamento Europeu solucionará o problema de confiança popular na UE, deve pensar mais. De qualquer maneira, o Spitzenkandidat vitorioso talvez não seja a pessoa mais adequada para chefiar a Comissão Europeia, que deve se colocar acima das contendas político partidárias.

E, se como parece possível, os líderes nacionais decidirem propor alguma outra pessoa, tudo isto terá sido uma farsa. Em 1979, era perfeitamente lógico supor que eleições diretas ao Parlamento Europeu criariam gradativamente partidos, políticas, mídia de dimensões europeias e, por fim, uma demonstração europeia. No entanto, isto não aconteceu. A política europeia continua esmagadoramente nacional, implementada em línguas diferentes nas mídias locais.

Uma grande votação para a variedade de partidos do "contra" significará que os edifícios do Parlamento Europeu, em Bruxelas e em Estrasburgo, se tornarão casas de vidro cheias de pessoas atirando pedras. Os partidos tradicionais, então, se unirão para criar uma ampla coalizão de facto. A fábrica de salsichas que é o Parlamento Europeu se tornará mais repleta do que nunca, muito mais comprometida pelas oportunidades extraordinárias que ela concede aos lobistas a fim de que eles se insiram no processo da produção de salsichas. Sem falar num sistema de generosos gastos que permitiu ao líder do Ukip, Nigel Farage, usar verba do Parlamento Europeu para pagar sua esposa alemã.

No final das contas, estas 29 eleições, e a da Ucrânia, muito provavelmente, não produzirão o choque criativo de que a UE necessita para galvanizá-la em uma ação efetiva para seus 500 milhões de cidadãos.

Ao mesmo tempo, há novamente uma guerra na Europa. Não a grande guerra, de 1914 ou 1939, mas uma sangrenta guerrinha, como a da ex-Iugoslávia, nos anos 90. A anexação da Crimeia foi possível por meio de uma operação militar russa e o agravamento da violência no leste da Ucrânia assemelha-se terrivelmente ao começo do conflito bósnio.

Portanto, a mais importante de todas as eleições desta semana se realizará na Europa, mas não na UE. Se eleições presidenciais democráticas se desenrolarem com sucesso na maior parte da Ucrânia, haverá uma chance - apenas uma chance - de que o país retome um processo constitucional. O resultado da negociação terá de ser uma Ucrânia soberana, claramente independente, mas com uma ampla cessão do poder às suas diferentes regiões.

E quem, na poderosa UE, com a maior economia do mundo, poderá fazer diferença neste caso? Não os Spitzenkandidaten, evidentemente, que, ao serem indagados a respeito da Ucrânia, abusaram das evasivas. Seguramente não o Parlamento Europeu. Não, eles se referiam aos governos nacionais, limitados por múltiplos Parlamentos nacionais e públicos. O que a UE faz é fornecer aos seus conselhos de ministros e ao seu Serviço de Ação Externa canais para trabalharem em estreita colaboração e traçarem uma estratégia comum.

Acima de tudo, a situação depende da Alemanha. Se há um país na Europa que Vladimir Putin ouvirá, é a Alemanha. Se há um país na Europa que pode unir as várias políticas de incentivo e coerção, é a Alemanha. Líderes alemães declararam recentemente que pretendem assumir a responsabilidade internacional em razão do poder do seu país. A chance de fazê-lo chegou mais cedo do que eles imaginavam e da maneira mais difícil.

Portanto, a política europeia dos dias de hoje é terrivelmente complexa e espantosamente simples. Milhares de palavras talvez não consigam expressá-la, mas uma pequena frase poderá dar um ideia: o apelo da Alemanha. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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