Trípoli reproduz conflito da Síria

Cidade libanesa é microcosmo do país vizinho

Lourival Sant´Anna, enviado especial, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2013 | 02h06

TRÍPOLI - Dois blindados leves do Exército libanês guardam a Praça Alá, no centro de Trípoli, um dos pontos de manifestações e confrontos entre sunitas e alauitas. Faixas espalhadas pela cidade exprimem a fúria da maioria sunita diante da minoria alauita e do regime sírio, aguçada pela explosão de dois carros-bomba na frente de duas mesquitas sunitas, no dia 23, que deixaram 48 mortos e centenas de feridos: "Por mais que os baixos se mexam, não alcançarão os altos"; "Trípoli não vai se ajoelhar para ninguém, enquanto houver um bebê aqui".

De acordo com as investigações, que envolveram a confissão de um cúmplice preso, um capitão e um agente sírios, com base no Porto de Tartus, 75 km ao norte, executaram os atentados.

Dois xeques sunitas, supostamente cooptados pelo regime sírio, foram detidos, sob acusação de que tinham conhecimento do plano. "São xeques de aluguel", dizem moradores de Trípoli, em um café de narguilé no centro da cidade.

Uma das mesquitas atingidas, Al-Salam ("A Paz") fica de frente para o prédio onde mora o general Ashraf Rifi, ex-comandante da Polícia Nacional, que se aposentou em abril. Especula-se que ele também poderia ser o alvo. Rifi é considerado próximo da Arábia Saudita - no Líbano, não há ninguém que não esteja filiado a um grupo sectário e político, muitas vezes com respaldo estrangeiro.

Oito dias antes, a explosão de um carro-bomba no bairro xiita de Dahie, sul de Beirute, perto do quartel-general do grupo Hezbollah, havia matado 20 pessoas e ferido mais de 200. A autoria do atentado foi reivindicada por um grupo sunita chamado Brigadas de Aisha, que afirmou que seu alvo era o Hezbollah e outros ataques ocorreriam.

Estima-se que 80% da população de Trípoli seja sunita, e o restante, alauita. Essa minoria, que pertence ao mesmo ramo do Islã do presidente sírio, Bashar Assad, concentra-se no bairro Jabal Nasser, ou "Montanha da Vitória". Do alto, franco-atiradores alauitas atiram contra sunitas, cujas milícias disparam de volta. Moradores da cidade dizem que o próprio xeque Hashem Minkara, um dos presos, lidera um movimento sunita, chamado Al-Tawhid (nome da doutrina do único Deus), que teria homens armados. As milícias já entraram em confronto pelo menos 20 vezes desde o início do conflito na Síria.

Mas os ressentimentos entre os dois grupos vêm de longe. Os sunitas acusam os alauitas de terem apoiado a Síria - então presidida pelo pai de Bashar, Hafez Assad - em 1986, quando ocupou o Líbano. Cerca de 500 milicianos sunitas que resistiram à ocupação foram mortos pelo Exército sírio, dizem moradores da cidade. Eles acusam os alauitas de pretender que Trípoli volte a pertencer à Síria, como na época do Império Otomano. Os alauitas consideram-se discriminados pelos sunitas.

Por aqui passaram armas para a rebelião na Síria no início do conflito, mas agora o Exército libanês controla a fronteira - para evitar problemas com o Hezbollah, o poderoso aliado da Síria e do Irã. A milícia xiita, por sua vez, transita livremente, afirmam os moradores da região. A 30 km da fronteira com a Síria, Trípoli é um microcosmo do conflito sectário que se desenrola no país vizinho - e uma amostra do seu potencial desestabilizador em toda a região. / L.S.

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