Tripulação de balsa sul-coreana comparece a audiência

Quinze integrantes da tripulação da balsa sul-coreana que afundou em abril, matando mais de 300 pessoas, compareceram nesta terça-feira ao tribunal para apelar das acusações de negligência e de ter falhado no salvamento dos passageiros.

Agência Estado

10 de junho de 2014 | 10h50

Quando os tripulantes ficaram em pé, com as cabeças baixas, perante três juízes do Tribunal Distrital de Gwangju, familiares das vítimas tiveram dificuldade para conter sua raiva. Muitos usavam fitas amarelas em memória dos mortos no desastre de 16 de abril, a maioria estudantes que faziam uma viagem escolar.

Houve um grande tumulto quando um dos tripulantes pareceu sorrir. Um juiz pediu aos réus que demonstrassem respeito e os três magistrados pediram que a multidão ficasse quieta.

"Todos deveriam ser sentenciados à morte", gritou um dos expectadores. Uma da integrantes da tripulação chorava tanto que não conseguiu se identificar para os juízes.

Devido às limitações de tempo nesta terça-feira, apenas 11 dos 15 réus entraram com apelações afirmando inocência. Os demais devem retornar para outra audiência no prazo de uma semana.

Todos os tripulantes sobreviventes responsáveis pela navegação da balsa foram acusados de negligência e de ter fracassado em sua função de proteger os passageiros. Vários dos réus reconheceram ter tido alguma responsabilidade, durante a audiência desta terça-feira, mas negaram que pudessem ter causado o naufrágio, afirmando que tinham pouco controle sobre a estabilidade da embarcação, que estava sobrecarregada com carga.

Após expressar suas condolências aos familiares das vítimas, a juíza Lim Joung-youb enfatizou o direito dos réus de apresentarem seus argumentos.

O capitão Lee Joon-seok e outros três tripulantes foram indiciados por homicídio, acusação que pode levar à pena de morte, embora a Coreia do Sul não tenha executado um réu desde 1997. A promotoria os acusa de ter combinado de deixar a embarcação quando compreenderam que os passageiros poderiam ficar presos e morrer, quando a balsa afundasse.

O advogado do capitão, Lee Kwang-jae, disse que os fatores que levaram ao naufrágio não poderiam ser controlados pelo capitão, que operava a embarcação apenas seis dias por mês, como funcionário terceirizado. Segundo o advogado, o capitão não deixou a balsa e tentou corrigir o equilíbrio da embarcação, além de pedir às pessoas que vestissem os coletes salva-vidas, embora estivesse ferido. Ele disse também que a guarda costeira tinha maior capacidade de monitorar a situação geral da balsa a partir dos helicópteros e botes de resgate do que o capitão, na cabine de comando.

O advogado afirmou que Park Han-gyeol, o terceiro na cadeia de comando, sofreu um ataque de pânico durante o naufrágio e que se sentou e chorou num canto da cabine de comando. A promotoria apresentou cerca de 2 mil provas ao tribunal.

Em comunicado enviado para os jornalistas por mensagem de texto e lido pelo representante das famílias Kim Byung-gwon antes da audiência, o comitê das famílias das vítimas exigiu uma dura punição à tripulação.

"Eles dizem que as feridas se curam com o tempo mas, para nós, é como se o tempo tivesse parado", diz o documento. "Os réus, que deveriam ter salvado os passageiros primeiro, fugiram e sobreviveram...os réus não apenas mataram os passageiros, eles também mataram as almas das famílias e a confiança básica em nossa sociedade."

A presidente Park Geun-hye disse que as ações da tripulação foram homicidas. A constante hostilidade contra os réus levantou questões sobre a justiça do julgamento. A tripulação é defendida por seis advogados indicados pelo Estado, três dos quais começaram a advogar apenas no ano passado. O tribunal disse em comunicado que vai garantir o direito dos réus e das vítimas.

Quase dois meses após o naufrágio, 292 corpos foram recuperados e 12 pessoas ainda estão desaparecidas. Mergulhadores continuam a buscar aqueles que, acredita-se, ainda estejam presos no interior da embarcação.

Há acusações de que a operadora da balsa, a Chonghaejin Marine Co., perigosamente sobrecarregou a balsa e forneceu treinamento de emergência inadequado aos tripulantes. Alguns dirigentes da empresa já foram detidos. Fonte: Associated Press.

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