Tripulação de fragata retida volta à Argentina

Justiça de Gana acatou pedido feito por fundo de investimento que tem US$ 300 milhões em títulos não pagos da dívida de Buenos Aires

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2012 | 03h03

Os 285 tripulantes da fragata Libertad, da Marinha argentina, retornaram ao seu país ontem de madrugada, após 22 dias ancorados no porto ganense de Tema, onde a embarcação está retida por ordem da Justiça do país africano.

A tripulação do navio-escola chegou ao Aeroporto de Ezeiza em um voo especial e foi rapidamente levada para bases navais nas redondezas de Buenos Aires, para evitar contato com a imprensa. A ordem das Forças Armadas era manter silêncio sobre o caso, que a imprensa argentina está qualificando de "papelão internacional".

A embarcação estava em uma viagem ao redor do mundo para treinamento dos marinheiros quando foi retida, a pedido do fundo de investimentos NLM-Elliot, que possui US$ 300 milhões em títulos da dívida pública argentina que não são pagos desde 2001. O NLM-Elliot quer que a Argentina pague um depósito de US$ 20 milhões para que o navio seja liberado.

A presidente argentina, Cristina Kirchner, rejeita categoricamente o pagamento, pois seu governo e o de seu marido, Néstor Kirchner, fizeram duas reestruturações da dívida, em 2005 e 2010, que o NLM-Elliot não aceita. Há poucos dias, em um jogo de palavras, Cristina disse que a Libertad poderia ficar retida em Gana por tempo indeterminado, mas os "fundos abutre" não ficariam com a liberdade dos argentinos.

Juntamente dos argentinos, uruguaios e chilenos que foram retirados do navio, desembarcou em Buenos Aires o segundo-tenente da Marinha brasileira Lailton Souza Jorge, de 26 anos.

Único brasileiro que integrava a tripulação da fragata, o baiano fazia um curso com a força naval argentina, o que incluía a viagem na Libertad. Na ida, a embarcação passou por Salvador. O plano da fragata era ancorar novamente na capital baiana na volta.

O retorno de Jorge ao Brasil estava originalmente programado para janeiro. O segundo-tenente não falou com a imprensa por determinação da Marinha brasileira.

'Papelão'. O escândalo provocado pela retenção da histórica fragata provocou nos últimos dias a queda do comandante da Marinha argentina, a retirada da diretora de Inteligência da força naval e a renúncia de dois secretários. Além disso, o próprio ministro da Defesa, Arturo Puricelli, está na corda bamba. Nas últimas semanas, a chancelaria e o ministério da Defesa trocaram acusações sobre a responsabilidade de uma decisão de alterar a rota original. A mudança determinou a escala em Gana, onde não existem garantias para que ativos do Estado argentino não sejam alvo de embargo.

Ao longo da última década, as rotas da fragata haviam evitado portos nos quais poderiam ocorrer sanções. A mesma atitude havia sido tomada pelo governo argentino, que em diversas ocasiões evitou voos com o avião presidencial a países onde a Justiça analisava pedidos de embargo contra a Argentina por credores internacionais.

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