Bertrand GUAY / AFP
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Triunfo ambientalista nas eleições europeias

Os jovens estão com sede de outro jogo que não é o da retratação

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2019 | 05h00

Acabaram, finalmente, as eleições europeias que atravancaram o céu político do Velho Continente durante tantas semanas. Pensou-se que elas seriam dominadas por um duelo feroz entre os dois heróis: Marine Le Pen (ultradireita e xenofóbica à loucura) contra Emmanuel Macron e seu slogan: “Nem à direita nem à esquerda”. Na verdade, esse duelo aconteceu, mas os dois saíram ilesos. Apenas alguns arranhões de punhal, sabre e espada, mas sem muito sangue. Nem mesmo machucados.

Então? Por nada? De forma nenhuma, porque, de repente, vemos avançar em glória um partido que, mudando seus rótulos, existe há muito tempo, mas com passos incertos e resultados medíocres demais para pesar no jogo político. Esse partido é o dos verdes, e os verdes deste ano deram um salto. Aqui na França são o terceiro partido, atrás do de Le Pen e do de Macron, com uma pontuação de 13,5%.

E esse não é um simples sobressalto. Na verdade, é uma onda calma e implacável que não sobe sozinha na França. Na Irlanda, onde os verdes eram pequenos, eles empinam o nariz. Na Áustria, eles estão progredindo, e na Holanda também. Na Alemanha, têm uma votação muito alta: 20,7%.

Esses avanços de surpresa foram, naturalmente, à custa dos antigos partidos. Na Alemanha, esse movimento de vai e vem entre os antigos partidos e os verdes é impressionante. Os dois grupos que dividem o poder já faz mais de meio século, os democratas cristãos (conservadores) de Angela Merkel e os SPD (socialistas), largam um monte de penas para trás. E se os ecologistas alemães não podem entrar no local mais sagrado do poder, aqui eles se tornam, em qualquer caso, “fazedores de reis”.

Na França, o quadro é menos claro porque a aparição de Macron na cena há dois anos já havia derrubado os dois antigos partidos do governo: os socialistas e a direita burguesa. Mas os verdes continuaram o trabalho. Com essas eleições, o Partido Socialista cambaleia à beira do nada. E a direita comum cai para 8,5% (uma vergonha).

Esses movimentos básicos dizem duas coisas. A primeira é que a “valsa” tem dois tempos (o tempo do poder e o tempo da oposição) e os dois maiores partidos não estão mais à altura deste século. Diz também que os jovens estão com sede de outro jogo que não é o da retratação.

O “político” está agora “influenciado”, “gangrenado” pelo terror quase metafísico que os homens experimentam imaginando a face humilhada desta terra, com suas florestas, seus rododendros, seus lagos e suas estações, enquanto as estepes, os desertos, as charnecas e litorais são afetados pelo aquecimento climático. Hoje em dia sabemos que a terra é mortal.

Uma breve observação sobre os “europeus” e a eleição de domingo. Macron jogou seu destino na balança. Ele sugeriu que desapareceria em caso de derrota do seu lado (La République em Marche). Promessa estúpida, bem no estilo desse homem recheado de duas ou três vaidades e três orgulhos. Mas, ao lado de Marine Le Pen, não estamos preparados para o fim. Assim que os resultados foram conhecidos, Le Pen exigiu que Macron, obrigado por seus discursos, renunciasse e colocasse seu título (de presidente da república) em jogo.

A exigência de Marine é ridícula. É verdade que seu partido, Le Rassemblement National (Reunião Nacional), venceu o de Macron (La République em Marche), mas “por um cabelo”, uma lacuna tão pequena que pode ser dito que Macron resistiu soberbamente aos duros golpes de Le Pen – e, indiretamente, de toda a direita nacionalista ou populista da Europa encolerizada. Este erro tático de Le Pen tem o efeito perverso de fortalecer mais aquele que deveria ser uma vítima, Macron.

Mas tudo isso tem pouca importância diante da verdadeira notícia do dia: a Europa, mesmo a do Leste, finalmente se atreve a enfrentar o aquecimento global, as chuvas malucas, terremotos e lixo atômico ameaçando a linda terra de Deus. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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