Triunfo americano não virá sem resgate moral

Só haverá vitória militar contra o terror quando os EUA voltarem a defender valores humanitários

Ron Suskind *, THE WASHINGTON POST, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2008 | 00h00

Autoridade moral. O que é isso? Você tem alguma? Gostaria de emprestar um pouco para o governo americano? Esse será o Santo Graal do presidente Barack Obama: encontrar autoridade moral - quanto antes, melhor.As queixas contra os Estados Unidos são bem conhecidas. Nos últimos oito anos, adotamos uma posição unilateral e irresponsável de ação em detrimento da análise, rejeitando o debate político prudente com base em evidências em favor da "Doutrina Nike" - simplesmente faça e limpe a sujeira depois.Mas o que vem em seguida? Se algum dia houve um presidente capaz de reivindicar uma ruptura nítida com seu antecessor, esse comandante-chefe é Obama. Os Estados Unidos, porém, precisam também de um plano que mostre que o que virá em seguida não será a mesma coisa de sempre. A grande charada é saber como uma nação com tamanho poder, tanto militar quanto econômico, consegue restaurar a energia moral, fonte de uma verdadeira influência mundial. A sensação de poder moral ausente tem acometido americanos de todos os tipos. Seus efeitos são concretos também. Sem esse poder, os EUA seriam incapazes de formar uma coalizão para barrar as ambições nucleares do Irã, opor-se às agressões de Vladimir Putin na Geórgia ou montar uma iniciativa global para apreender materiais nucleares nos mercados negros do mundo. Sem liderança moral não há como somar forças. A resposta de Estados irresponsáveis, como a Rússia - e mesmo de redes terroristas - será uniforme. Bem-vindos à lama, América! Com os recursos escassos, necessários para uma nova geração de prioridades, Obama deveria pensar em transformar duas esferas enormes e afins: defesa e inteligência. Isso preparará institucionalmente o terreno para a restauração do poder moral americano. As defesas americanas ainda estão montadas para travar as guerras terrestres do último século, designadas para a dança de força e diplomacia de Estado para Estado com seus Exércitos amontoados nas fronteiras.O establishment de inteligência americano também está estruturado para uma batalha contra a ameaça soviética ou para grandes conflitos entre Estados. Temos pouquíssima espionagem sólida ocorrendo e cerca de mil agentes preparados, a maioria deles sem as habilidades lingüísticas necessárias para agir em países que poderiam desestruturar regiões ou exportar danos para nossas praias. É preciso uma reinvenção completa: construir uma força militar leve e rápida, pronta para uma guerra de guerrilha e para construção nacional, e um serviço de inteligência de primeira classe, com supervisão apropriada, orientado para obter uma real inteligência humana, o padrão ouro da informação operacional. BOA VONTADEAinda que os Estados Unidos conservem uma grande força militar, sua principal função poderá ser a proteção de trabalhadores humanitários enquanto estes realizam boas ações, como construir hospitais, escolas e redes elétricas enquanto esperam pela boa vontade de uma população nativa que comece a render ajuda, conhecimento local e informações secretas preciosas.A lista de pecados americanos é longa - de Abu Ghraib à Baía de Guantánamo, de abusos de direitos humanos a verdadeiras violações legais. Esse tipo de limpeza - de confrontar a verdade e assumir as conseqüências - é a única maneira de avançar em um caminho moral. É o sinal de um país maduro, firme, prudente, pronto para refazer seu curso quando necessário. Um país que merece ser seguido. Mas, aqui, há pelo menos um precedente revelador de como ações difíceis de se corrigir em casa podem, com o tempo, mudar inesperadamente as visões mundiais: Watergate. Em 1974, muitos observadores temiam que a renúncia do presidente Richard Nixon fortalecesse inimigos dos Estados Unidos e enviasse uma mensagem de que os poderosos americanos estavam à deriva.Um dos que ecoaram esses temores foi um assessor de Nixon chamado Dick Cheney, para o qual o erro de Watergate foi Nixon ter sido informado demais. Se não lhe houvessem falado das invasões, Nixon jamais teria se envolvido no encobrimento ilegal de informações. Um quarto de século depois, Cheney ampliou esse conceito para o atual presidente, cuidando para que George W. Bush não fosse informado em demasia para poder, se necessário, negar suas próprias declarações e esquivar-se da responsabilidade. No fim, isso não enganou ninguém.Há um forte consenso entre historiadores sobre o que o mundo aprendeu com Watergate. A principal lição é que o primado da lei na América não é uma questão de conveniência. De fato, pelas leis devidamente constituídas, um presidente não é diferente do coletor de lixo que rola uma lata para seu caminhão diante da Casa Branca.Juntamente com o poder de seu exemplo, os EUA poderiam finalmente começar a desviar recursos significativos destinados a uma força militar esmagadora para o objetivo de tornar-se uma verdadeira superpotência humanitária. Nesta era conectada, esforços como esses funcionam como nunca. O índice de aprovação dos Estados Unidos ficou abaixo de 20% durante muitos anos em um país crítico como o Paquistão, mas saltou para 48% depois que operações humanitárias dos EUA chegaram à Caxemira, em 2005, depois de um terremoto.Meses depois, porém, quando um avião não tripulado bombardeou uma aldeia na área tribal do Paquistão matando 18 civis, a aprovação dos Estados Unidos caiu novamente abaixo de 20%, e ali continua até hoje. "Quando formos atingidos novamente por terroristas, e nós o seremos, precisamos mostrar uma espécie de flexibilidade", disse o ex-chefe britânico de contraterrorismo, David Omand. "Continuaremos trabalhando nas questões importantes, as grandes, para aliviar o sofrimento do mundo de maneiras visíveis e consistentes." Essas maneiras "visíveis e consistentes" põem medo nos terroristas, cujo principal objetivo é nos arrastar para reações exageradas e provar que os valores humanitários são frágeis e hipócritas. OPORTUNIDADEDurante a campanha presidencial, entrevistei em Londres um radical suspeito de ter ligações com a Al-Qaeda. Ele estava preocupado. "Obama seria um pesadelo para nós", disse. "Ele parece o mundo, conhece o Islã, seu avô foi um pastor de cabras no Quênia, vivendo como ainda vive a maior parte do mundo. Como presidente, ele poderá unificar os moderados muçulmanos, que nos superam na proporção de quatro para um. Eles sabem quem nós somos, onde vivemos. Eles poderiam nos esmagar."O fato de que tantas pessoas da Ásia, da África e da América do Sul festejaram a eleição de Obama dá aos EUA uma rara oportunidade para começar uma lenta campanha por confiança, crédito e, com o tempo, respaldo do restante do mundo. * Ron Suskind é jornalista e escritor, autor de The One Percent Doctrine: Deep Inside America?s Pursuit of its Enemies Since 9/11

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