Triunfo do diálogo

A 7.ª Cúpula das Américas demonstrou que, finalmente, nos demos conta de que a conversação dá melhores resultados que o confronto

JOSÉ MIGUEL, INSULZA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2015 | 02h03

A 7.ª Cúpula ds Américas atendeu a todas nossas expectativas: pela primeira vez, estiveram presentes no encontro regional, sentados e dialogando na mesma mesa, os chefes de Estado e de governo dos 35 países da América. Um fato histórico que teve também um grande resultado: pela primeira vez, em mais de meio século, os presidentes de Cuba e dos EUA mantiveram uma conversação direta.

Foi uma cúpula de grandes momentos de harmonia e entendimento, mas também de agitada retórica e, ás vezes, como disse o presidente Barack Obama, pareceu que alguns queriam falar mais do passado do que do futuro. Mas, em todo caso, falamos de história: quão longe estiveram do clima desta cúpula os tempos em que convidar o presidente de Cuba a uma reunião da qual participava o presidente dos EUA pressupunha que fossem tomadas medidas logísticas para evitar que se encontrassem. Os tempos mudaram em favor do diálogo.

Hoje, dialoga-se para que haja paz na Colômbia. Belize e Guatemala sentam-se à mesa para resolver um problema que sempre acompanhou seu relacionamento bilateral. As forças políticas de El Salvador firmam um acordo para trabalhar em conjunto. No Haiti, é alcançado um acordo para a realização de eleições. Nos últimos dez anos, a Organização dos Estados Americanos observou mais de 100 eleições numa região em que antes eram raras e, melhor ainda, vimos que, em muitos países, o poder muda de mãos sem que isso provoque convulsões.

Parece que, finalmente, nos demos conta de que o diálogo e a conciliação dão melhores resultados do que o confronto e a exclusão. Daí, as expressões de satisfação no Panamá, sem vencedores nem vencidos. Tudo o que aconteceu no passado nos convida a pensar que a 7.ª Cúpula é o grande começo de uma nova era que se caracteriza cada vez mais pelo respeito à inclusão de todos, pelo respeito à soberania de todos e pelo respeito irrestrito à democracia e aos direitos humanos.

Como disse em meu discurso na Cúpula, esses são princípios essenciais que nem sempre são compatíveis. Ainda temos democracias imperfeitas e casos de evidente retrocesso. A democracia não só é construída, como também pode ser desconstruída pelo abuso, pela arbitrariedade, pela violação dos direitos humanos e do estado de direito. No entanto, isso não significa que devamos voltar a recorrer à intervenção ou à exclusão para impor princípios pela força e de fora para dentro. Ninguém quer isso como um caminho para a região. O único caminho possível é o que predominou no Panamá: a disposição ao diálogo.

Desejar que a partir do encontro entre os presidentes dos EUA e de Cuba se chegue também a um melhor entendimento entre os dois países. E também que o espírito que reinou na Cúpula ajude a todos os atores políticos e sociais da Venezuela a encontrar, pela via do diálogo, acordos que permitam a libertação das pessoas presas por razões políticas, um processo eleitoral inclusivo e os compromissos necessários para alcançar um caminho democrático. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É SECRETÁRIO-GERAL DA OEA

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