Bryan R. Smith/AFP
Bryan R. Smith/AFP

Triunfo vem no berço da democracia americana

Estado da Pensilvânia e cidade da Filadélfia definem vitória de Biden e dão golpe final na esperança de Trump se manter no poder 

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 08h45

FILADÉLFIA - A eleição americana encerrou a presidência de Donald Trump com doses de ironia. O Estado que definiu a vitória foi a Pensilvânia, onde Joe Biden nasceu, e a cidade da Filadélfia, que deu o golpe de misericórdia, é o berço da democracia americana, onde os patriarcas dos EUA se reuniram para assinar a declaração de independência, em 1776, e a Constituição, em 1787.

Em 2018, Trump se envolveu em um bate-boca com os jogadores do Eagles, time de futebol americano da Filadélfia, que venceu o Super Bowl daquele ano. O presidente criticou a equipe por se ajoelhar durante o hino nacional, em protesto contra a violência policial. A discussão envolveu toda a cidade, incluindo o prefeito, o democrata Jim Kenney. Após a desavença, Trump cancelou a visita que o time faria à Casa Branca. 

Imediatamente após o anúncio de que a Pensilvânia tinha dado a vitória para Biden, milhares de pessoas saíram às ruas da Filadélfia e de Pittsburgh, segunda cidade mais populosa do Estado, para celebrar. “O clima é de festa”, disse o brasileiro Luís Del Papa, de 39 anos, arquiteto de TI, que mora na cidade desde 2018. Apoiadores de Biden se reuniram no centro histórico da cidade. 

Segundo ele, a festa vem desde quinta-feira, quando Biden virou a apuração no Estado. “Quando ele virou, já se imaginava que Trump não conseguiria mais alcançá-lo. Mas foi uma vitória esmagadora aqui. A sensação é de alívio e de um pouco de esperança.” 

Embora na noite da eleição Biden estivesse perdendo por 700 mil votos, o déficit foi compensado graças aos mais de 2,6 milhões de votos enviados pelo correio antecipadamente. Estado-chave, a Pensilvânia fica no Cinturão da Ferrugem, que desde 2016 passou a ser um termômetro do apoio político a Trump e um teste de sua resistência. 

Em 2016, o presidente venceu Hillary Clinton e tirou o Estado das mãos dos democratas, com 48,2% dos votos, contra 47,5%. As promessas de mais empregos, revisão de acordos comerciais e de “tornar a América grande de novo” animaram a classe trabalhadora a votar no republicano. Ao se lançar candidato, Biden prometeu aos democratas recuperar o terreno perdido.

O historiador e professor da Universidade de Princeton Patrick de Oliveira, morador da Filadélfia desde 2016,  afirma que o clima pré-eleições estava “ansioso, mas confiante”. “As enquetes mostravam clara vantagem para Biden, apesar de poucos acreditarem nelas, visto o que aconteceu em 2016”, conta. “É um estado onde todos os candidatos fazem muita campanha, pois pode cair para qualquer um dos lados".

Para ele, dois fatores foram determinantes para a força anti-Trump na cidade: o primeiro é a pandemia. “De forma intencional, Trump não escutou os especialistas.  Ele não conseguiu conduzir o país pela pandemia, não ofereceu confiança e liderança”, afirma. O segundo é a questão racial. “O assassinato de George Floyd (e de muitos outros negros) nas mãos da polícia foi um “turning point.” Apesar de muitos dizerem que o Black Lives Matter iria causar a derrota dos Democratas, não foi isso que vimos, e o movimento na verdade ajudou a mobilizar os eleitores”.

Para Del Papa, o resultado ocorreu graças à grande mobilização de negros e mulheres. “Existe a sensação de que é um momento histórico, não só pela saída do Trump, mas também por todos esses movimentos que se fortaleceram, como o Black Lives Matter”, afirma. “Filadélfia e Pensilvânia costumam ser encaradas como uma ‘tendência’ em relação ao resto do país.”

A Pensilvânia tem grande importância econômica e política. É um Estado industrial, considerado chave na eleição americana. Apesar de ter duas grandes cidades, Filadélfia e Pittsburgh, que são redutos democratas, Biden avançou também nos subúrbios, que abandonaram o Partido Republicano na era Trump. 

Para vencer uma eleição na Pensilvânia, os republicanos precisam diminuir a votação dos democratas nas áreas urbanas, e os democratas precisam de margens menores nas zonas rurais. Biden conseguiu fazer as duas coisas. Em muitos condados no interior do Estado, ele teve de 30% a 40% dos votos. E nas cidades, Trump naufragou. Na Filadélfia, Biden obteve meio milhão de votos e venceu por uma margem impressionante: 81% a 18%.

Oliveira afirma que é um momento histórico. “Estamos no meio de uma pandemia fora de controle, mas mesmo assim é disparada a eleição com o maior número de votos da história dos EUA. O Trump tem uma base forte, mas a rejeição é muito maior, como vemos nos números absolutos para cada candidato”, diz. Mais histórico ainda, afirma, é a vice-presidência de Kamala Harris. “É uma mulher negra de ascendência indiana, que se formou em uma universidade historicamente negra que é uma espécie de farol para a cultura e intelectualidade afro-americana”, explica. “Teremos que esperar para ver as políticas, mas no âmbito representativo é um momento de extrema importância que reflete a diversidade desse país—uma diversidade demonizada pelo presidente que foi derrotado”.

Biden lançou sua campanha em maio de 2019 com um discurso na Filadélfia e encerrou a jornada com um comício em Pittsburgh. O presidente eleito dos EUA nasceu em Scranton, cidade industrial no norte do Estado. 

A amigos e aliados, ele confidenciou que, de todos os Estados-chave que precisava ganhar, a Pensilvânia tinha uma carga sentimental. “Esta é uma campanha entre Scranton e Park Avenue”, disse Biden, em uma das paradas na cidade, em referência a Nova York, onde nasceu Trump. 

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