Troca de direção motivou greve de fome coletiva

A greve de fome feita por prisioneiros em Guantánamo teve início, segundo os advogados de alguns deles, após uma troca de direção na prisão ocorrida no fim de 2012. "Com esse novo comando, o respeito mútuo acabou e voltamos ao ponto em que estávamos na administração (de George W. Bush) em termos de relacionamento entre guardas e prisioneiros", disse ao Estado Carlos Warner, defensor de 11 presos.

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h11

O advogado afirmou que os novos guardas adotam métodos mais agressivos. "Soubemos que livros do Alcorão são revistados e retirados dos presos. Os militares inspecionam o Alcorão procurando coisas escondidas, mas como alguém vai contrabandear algo em Guantánamo? Esse tratamento é humilhante, como o que víamos nos dias de Bush", declarou Polly Rossdale, advogada em uma organização que representa 17 presos de Guantánamo e coordenadora de um programa de reintegração para os ex-prisioneiros.

Os dois advogados afirmam que as novas medidas foram apenas a "gota d'água". "Eles (os prisioneiros) estão sem esperança, desesperados. Todos acreditam que vão morrer ali. E por que não iriam pensar assim? Alguns estão presos há mais de 11 anos sem julgamento. Homens desesperados assim decidem que não vão morrer quietos e decidem fazê-lo de um jeito que o mundo preste atenção", afirmou Warner.

Dos 166 presos, 9 foram acusados ou condenados, segundo registros dos EUA. Além disso, cerca de metade deles já foi liberada para transferência para outros países, segundo a alta-comissária para direitos humanos da ONU, Navi Pillay.

De acordo com os advogados, pelo menos 130 presos aderiram à greve de fome. As autoridades americanas dizem que foram 40.

A advogada afirma que a principal queixa de seus clientes é o fato de o presidente Barack Obama não ter cumprido a promessa de fechar Guantánamo.

David Remes, que defende 16 presos, afirmou que seus clientes se dizem "frustrados". "O sentimento vai além da raiva, do senso de justiça. Eles tinham a esperança de sair de lá e encontrar suas famílias quando Obama disse que fecharia a prisão."

No início da greve de fome, segundo Warner, os presos tinham apenas uma exigência: permanecer com o Alcorão

Punições. Os advogados afirmam que muitos detentos são alimentados à força. "Os militares começaram alimentar os presos por um tubo no nariz", disse Warner. Polly afirmou que, além disso, os prisioneiros relatam ser punidos com violência por terem aderido à greve de fome. Um deles é Abu Wael Dhiab. "Ele é sírio e está paralisado há alguns anos, usando cadeira de rodas. Como punição pela greve, a sua cadeira foi confiscada. Esse tipo de castigo já foi condenado pela ONU, vai contra os direitos humanos." Para Warner, só há uma maneira de a greve de fome terminar. "O presidente Obama precisa se comprometer de novo a fechar Guantánamo. O mundo precisa saber que homens estão sofrendo e morrendo ali apenas por motivos políticos."

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