Troca de guarda

Assisti ao discurso de abdicação do rei Juan Carlos num pequeno televisor de um hotelzinho em Florença e fiquei emocionado ao escutá-lo em razão do visível esforço que ele fazia para manter a serenidade e mostrar seu afastamento do trono como algo natural, sabendo muito bem que dava um passo transcendental, algo que podemos chamar de "feito histórico". E porque essa renúncia em favor do filho, Felipe, encerrava um período duríssimo para ele, de problemas de saúde, escândalos, pedidos públicos de desculpas e grandes esforços, nos últimos tempos, na tentativa de recuperar para si e para a instituição monárquica a popularidade que ele tinha sentido quebrar. O discurso foi impecável: breve, preciso, persuasivo e bem escrito.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2014 | 02h04

Desde então, o rei recebeu múltiplas manifestações de carinho em todas as suas aparições em público e poucos ataques e diatribes. Tenho certeza que, na medida que o tempo passa, o balanço dos historiadores fará crescer sua figura de estadista, terminando por reconhecer que os 39 anos do seu reinado terão sido, em grande parte graças a ele, os mais livres, democráticos e prósperos da longa história da Espanha. E nada me parece mais justo do que dizer - como afirmou Javier Cercas num artigo - que sem o rei Juan Carlos não teria havido democracia no país. É claro que não, ao menos não da maneira pacífica, consensual e inteligente como foi feita a transição.

Espero que no futuro algum romancista espanhol de inspiração tolstoiana se atreva a contar esta fantástica história. Com as melhores cabeças de que dispunha, o regime de Franco teria urdido sua sobrevivência mediante a restauração de uma monarquia autoritária, para a qual o caudilho e aqueles que o cercavam tinham educado, desde menino, o jovem príncipe, afastando-o da família e submetendo-o a uma zelosa formação especial, sendo coroado pelas cortes franquistas como rei da Espanha logo após a morte do general.

Abertura. Ninguém sabe exatamente desde quando, mas o jovem Juan Carlos tinha chegado à conclusão de que, ao assumir o trono, sua obrigação deveria ser oposta àquela que tinha sido preparada para ele. Ou seja, não prolongar a ditadura, e sim acabar com ela e conduzir a Espanha a uma democracia moderna e constitucional, que a abriria para o mundo do qual o país tinha sido praticamente sequestrado nos 40 anos anteriores, reconciliando todos os espanhóis dentro de um sistema aberto, tolerante, de legalidade e liberdade, no qual coexistiram pacificamente todas as ideias e doutrinas e seriam respeitados os direitos humanos.

Parecia uma tarefa impossível de ser alcançada sem que os herdeiros de Franco, que controlavam o poder e ainda contavam - não há motivo para mentir - com um forte apoio da opinião pública, se rebelassem contra essa democratização da Espanha que os condenaria à extinção, opondo-se a ela com todos os meios ao seu alcance, incluindo, obviamente, a violência militar. Por que não o fizeram? Porque, com uma habilidade extraordinária, conservando sempre as formas mais únicas, mas sem jamais dar um passo em falso, o jovem monarca foi os embarcando de tal modo no processo de transformação que, quando esses começaram a advertir que já tinham concedido demais, confundidos e desconcertados, em vez de reagir já estavam fazendo nova concessão. A opinião pública, transformada no decorrer da marcha à liberdade, se alistava nela e apoiava de modo cada vez mais dinâmico as mudanças que, semana a semana, dia a dia, foram alterando a realidade política da Espanha.

Em razão de sua morte, lembramos recentemente e com muita justiça o notável trabalho realizado por Adolfo Suárez na transição. Não poderia ser diferente. Mas é preciso lembrar que foi o rei Juan Carlos que, com olfato infalível, escolheu como colaborador nessa extraordinária operação aquele que era nada menos do que secretário-geral do movimento, ou seja, do conjunto de organizações e instituições políticas do regime franquista.

Transição. Ninguém deve subestimar a importância que alcançaram praticamente todas as forças políticas do país, da direita até a esquerda, que se mostraram dispostas na transição pacífica da ditadura para a democracia na Espanha, de um regime vertical para um sistema plural e aberto no interesse de conservar a paz, a fazer concessões que tornaram possíveis os consensos dos quais resultou o grande acordo constitucional. Mas ninguém deveria esquecer que, desde o início, quem concebeu e levou a cabo esse processo foi o rei que, prestando um novo grande serviço ao país, acaba de abdicar para que herde o trono o príncipe Felipe e, com ele, tenha início para a Espanha "uma nova etapa de esperança na qual sejam combinados a experiência adquirida e o impulso de uma nova geração".

Se com isso o rei Juan Carlos contribuiu de maneira decisiva para que a democratização da Espanha fosse levada a cabo de maneira pacífica - com sua conduta clara e firme que debelou a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981 -, ele conseguiu para a monarquia uma legitimidade que tinha perdido vigor e calor popular. Afinal, o povo espanhol não era monarquista quando Franco morreu. O povo começou - ou voltou - a sê-lo graças ao protagonismo do rei apoiando e liderando a democratização da Espanha. Mas foi logo após o rechaço à tentativa de golpe que o rei Juan Carlos devolveu à monarquia o respaldo confiante e entusiasmado da grande maioria da população, algo que foi fator decisivo para a estabilidade política e institucional do país.

Essa história, que acabo de resumir em poucas linhas, ainda não foi contada. Trata-se de uma história fora do comum, de complexidade e sutileza comparáveis às dos maiores romances, na qual, na mais absoluta solidão, um jovem prisioneiro de um maquinário quase invencível se liberta dele e decide, exercendo poderes que o rei tinha na época, rebelar-se contra o sistema que tinha sido incumbido de salvar, desfazendo-o e refazendo-o dos pés à cabeça, alterando sutilmente todo o regulamento que deveria aprender e executar, substituindo-o pelo seu inverso. É claro que muitos o ajudaram, mas o diretor do espetáculo foi ele, sozinho.

Por isso a Espanha sobre a qual dom Felipe VI vai reinar é, hoje, essencialmente diferente do país da época da morte de Franco: uma democracia moderna e respeitada, um país livre, capaz e culto, que figura entre os mais avançados do mundo. Convém não esquecer o quanto de tudo isso devemos ao monarca que agora se retira.

É verdade que o príncipe Felipe foi muito bem preparado para a difícil responsabilidade que vai assumir. Também é verdade que a Espanha vive hoje problemas imensos - o primeiro e mais grave deles é as ameaça de secessão que poderia mergulhá-la numa crise de consequências incalculáveis - e que, por mais que o soberano de uma monarquia constitucional reine sem governar, os desafios que ele vai enfrentar vão pôr à prova todos os conhecimentos e experiências que ele tiver adquirido no decorrer de sua exigente formação. O mais importante é que o novo rei, mediante seus gestos, iniciativas, tato e comportamento, mantenha viva a adesão da sociedade espanhola à monarquia constitucional.

Não é certo que, enquanto houver democracia, pouco importe se um regime é republicano ou monárquico. Não quando o problema da unidade de um país é tão grave quanto observamos atualmente na Espanha. A monarquia é uma das poucas instituições que garantem esta união na diversidade sem a qual poderia resultar a desintegração de uma das mais antigas e influentes civilizações do mundo. Em todas as outras, a divisão, o rancor, o fanatismo e a miopia política já plantaram as sementes da fragmentação. Todos devemos ajudar sua majestade, o rei Felipe VI, a obter êxito, contribuindo com nosso grão de areia para a tarefa de manter a Espanha unida, com diversidade e liberdade, como o país tem sido nos últimos 39 anos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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