AFP PHOTO / Juan MABROMATA AND Eitan ABRAMOVICH
AFP PHOTO / Juan MABROMATA AND Eitan ABRAMOVICH

Trocando o peronismo pela sobriedade

Macri venceu importante teste eleitoral, aumentando as chances de que a Argentina retome o caminho da prosperidade

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 05h00

Tudo indica que o presidente da Argentina, Mauricio Macri, será o primeiro não peronista eleito democraticamente a terminar seu mandato na Casa Rosada. Mais que isso, entre os empresários argentinos há esperanças de que a vitória eleitoral obtida no domingo seja um prenúncio de sua reeleição em 2019. Com oito anos no cargo, Macri teria tempo suficiente para reconstruir a economia do país.

Apesar do otimismo desencadeado pelo bom desempenho eleitoral, o líder argentino não estará livre para implementar todas as reformas que deseja. Sua coalizão, Cambiemos, permanecerá sendo minoritária em ambas as casas legislativas, ainda que com maior número de cadeiras. Em razão disso, o presidente deve dar prosseguimento à estratégia cautelosa que adotou em seus primeiros dois anos de governo. Nesse período, Macri tentou convencer lideranças sindicais e peronistas moderados, muitos dos quais detestam a ex-presidente e líder da oposição Cristina Kirchner, a aceitar as reformas, por mais dolorosas que sejam no curto prazo. 

Desde que chegou à Casa Rosada, em dezembro de 2015, Macri eliminou controles cambiais, acabou com a maioria dos impostos sobre as exportações, desvalorizou o peso, fechou um acordo com os credores internacionais, abriu o país para os investidores estrangeiros e – correndo maior risco – começou a reduzir os enormes subsídios incluídos por Cristina nas tarifas de eletricidade, gás, água e transporte. 

Por essas medidas, o primeiro ano do governo Macri foi difícil. A economia encolheu, os salários caíram em termos reais, a inflação saltou para quase 40% e o desemprego (difícil de calcular, uma vez que um terço dos trabalhadores está no setor informal) superou os 9%. Este ano, a maior parte dos indicadores apresenta números positivos, muito embora a recuperação dos salários e do emprego seja lenta e os investidores estrangeiros continuem receosos. A inflação recuou para 22% e continua em queda, a economia está crescendo quase 3% e deve continuar se expandindo no ano que vem.

Com o bom resultado de domingo, o ritmo das reformas deve acelerar. As tarifas dos transportes e de outros serviços provavelmente terão novo aumento. Assim, é pouco provável que a inflação feche o ano dentro da meta de 17% estabelecida pelo Banco Central. A redução nos subsídios, porém, aliviará o déficit fiscal e isso contribuirá para baixar o aumento dos preços no longo prazo. O governo espera que a taxa inflacionária média, que permaneceu acima dos 20% durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner, esteja entre 8% e 12% até o fim do ano que vem e entre 5% e 8% antes da próxima eleição presidencial, no fim de 2019.

Macri também gostaria de desonerar a folha de pagamento das empresas, relaxar a legislação trabalhista, fechar estatais deficitárias e enxugar o setor público improdutivo, que inchou durante o governo Kirchner. E iria além, reformando o sistema previdenciário, que Cristina sobrecarregou ao conceder aposentadorias integrais a mais de 3 milhões de pessoas que, tendo passado a vida na informalidade, nunca haviam feito contribuições. Outro desejo seu é tornar a Justiça argentina mais independente. Mas talvez prefira não embarcar em mudanças tão controversas.

Por ora, a queda na popularidade de Cristina junto à classe média e as disputas no interior do peronismo, movimento que nunca primou pela coesão ideológica, são os maiores ativos políticos de Macri. As acusações de corrupção e delitos criminosos contra a ex-presidente e seus auxiliares mais próximos, muitos dos quais correm o risco de serem condenados a pesadas penas de reclusão, continuam a proliferar. 

Apesar disso, Cristina conta com sólida base de apoio entre as classes baixas peronistas, em especial nos bairros da zona sul de Buenos Aires, que ainda a reverenciam por lhes ter garantido empregos, acesso à seguridade social e habitação barata, e tendem a achar que as acusações de corrupção contra a ex-presidente são politicamente motivadas. Para os kirchneristas, Macri é apenas o filho mimado de um homem rico. Imigrante italiano, o pai do presidente argentino fez fortuna realizando obras para o governo.

No entanto, o maior risco é o de que, com seu gradualismo, Macri faça concessões excessivas ao peronismo e acabe não reformando o Estado, não sanando as contas públicas e deixando a inflação elevada demais. De modo geral, porém, o horizonte argentino raras vezes pareceu tão auspicioso. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.