U.S. Navy
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Tropa secreta dos EUA cresce 13 vezes

Grupo de elite passou de 1,8 mil soldados antes do 11 de Setembro para 25 mil; unidade mantinha prisões no Iraque e no Afeganistão

Dana Priest e William M. Arkin, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2011 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Aviões não tripulados da CIA e forças paramilitares mataram dezenas de líderes da Al-Qaeda e milhares de seus soldados rasos. Mas há outra organização misteriosa que matou ainda mais inimigos dos EUA nos últimos dez anos. Desde os ataques de 11 de Setembro, esse grupo secreto de homens (e algumas mulheres) está 13 vezes maior, mantendo um grau de sigilo que nem o serviço de espionagem americano consegue.

Agentes da CIA prenderam e interrogaram cerca de 100 suspeitos de terrorismo em suas antigas prisões secretas ao redor do mundo, mas as tropas dessa outra organização secreta prenderam e interrogaram dez vezes mais suspeitos, e os mantiveram em celas que somente ela controla no Iraque e no Afeganistão. "Nós somos a matéria escura. Somos a força que ordena o universo, mas não pode ser vista", disse um musculoso membro do grupo de elite Seal da Marinha, descrevendo sua unidade.

Os Seals são apenas uma parte do Comando de Operações Especiais Conjuntas do Exército americano (conhecido pela sigla em inglês Jsoc), inicialmente uma equipe de resgate raramente usada que se transformou no Exército secreto dos EUA. Quando os membros desta força de elite mataram Osama bin Laden, no Paquistão, em maio, líderes do comando comemoraram não apenas o sucesso da missão, mas também o fato de poucas pessoas saberem da existência do seu comando, com sede em Fayetteville, Carolina do Norte.

Dois presidentes e três secretários de Estado pediram rotineiramente ao comando que preparasse missões de coleta de informações e incursões mortais, na maior parte no Iraque e no Afeganistão, mas também em países com os quais os EUA não estavam em guerra, incluindo o Iêmen, Paquistão, Somália, Filipinas, Nigéria e Síria. "A CIA não tem a estrutura nem a autoridade para fazer o que nós podemos fazer", disse um agente do grupo.

O presidente também conferiu ao comando a rara autoridade para selecionar os indivíduos de sua lista de alvos - e depois matá-los em vez de capturá-los. Os críticos afirmam que esta missão de caça ao homem não passa de assassinato, uma prática proibida pela legislação americana. A lista do comando em geral não é coordenada com a CIA, que tem uma lista de nomes semelhante, mas mais reduzida.

Criado em 1980, mas reinventado nos últimos anos, o comando cresceu de 1.800 integrantes, antes de 11 de Setembro, para nada menos que 25 mil, número que flutua de acordo com sua missão. Ele tem sua própria divisão de inteligência, seus próprios drones e aviões de reconhecimento e até satélites exclusivos. Também tem seus próprios combatentes cibernéticos, que, em 11 de setembro de 2008, fecharam todos os sites jihadistas da Internet que eles conheciam.

O sigilo é uma das principais marcas da unidade. Quando os agentes do comando trabalham para as agências do governo civil ou em embaixadas americanas no exterior, como costumam fazer, dispensam os uniformes, ao contrário de seus outros camaradas militares. Em combate, eles não têm nem nome nem identificadores de hierarquia. Eles se escondem por trás de várias denominações: o Exército Secreto do Norte de Virgínia, Força-Tarefa Verde, Força-Tarefa 11, Força-Tarefa 121. Os chefes do grupo quase nunca falam em público. E não têm nenhum site público.

No final de 2003, o comando teve um novo comandante que transformou a organização seguramente na arma mais eficiente do arsenal americano de combate ao terrorismo. No cargo de vice-diretor de operações do Estado Maior Conjunto, brigadeiro Stanley A. McChrystal, acreditava que existia uma aversão à tomada de decisões na cúpula do governo.

Ninguém queria estar errado, então ou as pessoas faziam mais perguntas ou acrescentavam mais elementos ao processo. A nova ênfase à cooperação entre as agências também implicava reuniões maiores e mais longas. Qualquer uma das agências poderia bloquear a ação até que era tarde demais. McChrystal achou que deveria "escapar" da sufocante burocracia de Washington, disse a alguns colaboradores.

Transferiu seu quartel-general para a Base Aérea de Balad, a 72 quilômetros de distância de Bagdá, e trabalhava num velho hangar de concreto com três centros de comando: um para combater a afiliada da Al-Qaeda no Iraque, outra para combater os extremistas xiitas no país e a terceira para ele, para a supervisão de todas as operações. Além disso, convenceu as outras agências de inteligência a ajudá-lo - o número de membros da CIA cresceu para 100; o do FBI e da Agência de Segurança Nacional para 80 ao todo. Ele conquistou a lealdade delas expondo amplamente sua operação a todos os envolvidos.

McChrystal instalou um computador simples e um portal onde as tropas podiam postar documentos, realizar chats, buscar as informações disponíveis a respeito de um alvo - fotos, dados biométricos, certificados acadêmicos, relatórios da inteligência - e acompanhar o tráfego das mensagens dos comandantes no meio das operações. Então ele permitiu o acesso aos burocratas rivais do comando especial: a CIA, o NSA, o FBI e outros. Também começou a colocar seus principais comandos em cada agência de segurança nacional. Ao todo ele colocou 75 oficiais em agências em Washington e mais 100 ao redor do mundo, que trocavam de lugar a cada quatro meses.

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