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Tropas curdas derrotam rebelião do Estado Islâmico em prisão na Síria

Penitenciária de Ghwaryan foi palco de conflito entre militantes do Estado Islâmico e tropas curdas por uma semana; imagens mostram vestígios do conflito, mas não há contagem de mortos e foragidos

Louisa Loveluck / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 15h33
Atualizado 26 de janeiro de 2022 | 18h42

As Forças Democráticas Sírias (SDF, por sua sigla em inglês), grupo de maioria curda apoiado pelos EUA no conflito que eclodiu em 2011, anunciaram nesta quarta-feira, 26, que recuperaram o controle de uma prisão para militantes do Estado Islâmico (EI) no nordeste do país. A vitória das tropas curdas contra os rebeldes encerra um impasse que durou uma semana e revelou a vulnerabilidade de um sistema penitenciário que abriga um grande número de terroristas islâmicos.

O cerco da prisão de Ghwaryan, em Hasakah, começou na quinta-feira da semana passada, quando combatentes do EI detonaram um carro-bomba no local. Acreditando se tratar de uma tentativa de resgate, alguns prisioneiros se revoltaram contra os guardas, tomando o controle da penitenciária, segundo o relato de autoridades das SDF.

Na tarde desta quarta-feira, a batalha parecia ter acabado, mas ninguém soube informar quantos presos escaparam ou foram mortos durante o tumulto. Estavam detidos no local cerca de 700 menores, alguns capturados no campo de batalha há três anos, e outros separados de suas mães em campos de detenção.

Fotos da prisão mostram vestígios da batalha. Uma parte de uma parede aparece queimada, outras tinham buracos irregulares onde explosivos ou estilhaços atingiram. Dezenas de prisioneiros faziam fila, vestidos com macacões laranja e suéteres cinza finos.

Quase três anos depois que forças curdas capturaram o último pedaço de terra que o Estado Islâmico descreveu como seu califado, cerca de 10 mil supostos membros do grupo extremista estão presos em celas no nordeste da Síria, em um limbo legal, aguardando julgamento ou repatriação para seus países de origem.

Cerca de 3 mil deles estavam na penitenciária em Hasakah, segundo as autoridades. Uma contagem completa ainda não havia sido feita na quarta-feira, mas especula-se que dezenas de presos possam ter escapado e outra dezena morrido.

A entrada e a saída da cidade foram proibidas enquanto os combates eram travados. A batalha ocorreu em meio a um quase apagão da mídia - fora as declarações de oficiais da SDF -, mas imagens de vídeo e telefonemas de dentro das celas indicam que os danos estruturais e o derramamento de sangue podem ter sido extensos.

O porta-voz da SDF, Farhad Shami, disse que houve danos significativos na ala norte da prisão, onde os menores estão detidos. "Eu diria que não pode ser uma prisão novamente", disse Shami. "Houve um grande confronto lá."

A ofensiva contra a prisão foi o ataque mais sério do Estado Islâmico na Síria em anos. E negociações estavam em andamento havia vários dias para encerrar o impasse. “Desde a manhã de ontem, o número de funcionários prisionais libertados subiu para 23”, disse a SDF em um comunicado na quarta-feira, antes da rendição final.

Imagens de vídeo divulgadas pelo SDF Press Center mostraram vários funcionários da prisão sendo atendidos enquanto deixavam o local, com os braços apoiados ao redor dos ombros dos soldados curdos em direção a uma ambulância. Depois de dias sem comida ou água, eles pareciam exaustos.

A coalizão liderada pelos EUA lançou dias de ataques aéreos em apoio às tropas terrestres, muitas dentro do perímetro da própria prisão. Um funcionário da coalizão disse que a força também bombardeou supostos militantes em terrenos industriais ao redor da instalação e que alguns dos ataques danificaram o prédio da prisão.

As forças terrestres da coalizão também estavam presentes, usando veículos blindados para apoiar as SDF enquanto se espalhavam ao redor da prisão para tornar o perímetro impenetrável.

O cerco da prisão de Ghwaryan se desenrolou como uma crônica anunciada. Autoridades da coalizão vêm alertando há anos que a prisão estava mal defendida e vulnerável a ataques. Do outro lado, líderes do Estado Islâmico pedem repetidamente a seus seguidores que libertem outros militantes.

“Isso não é uma surpresa”, disse um alto funcionário ocidental, falando sob condição de anonimato porque não estava autorizado a falar com a mídia. “Todo mundo sabia que isso poderia acontecer.”

Mas o tamanho do ataque de fora dos muros da prisão pegou as forças curdas de surpresa e demonstrou que os militantes, considerados amplamente derrotados, podem ter reconstruído suas capacidades de combate mais do que se pensava anteriormente. Por dias, eles usaram franco-atiradores, granadas e homens-bomba para se manterem em combate, enquanto os civis abandonaram os bairros vizinhos.

Em declarações públicas, a SDF disse que o ataque estava sendo planejado há um período de até seis meses. Não ficou claro como a coalizão chegou a essa conclusão ou  por que o ataque não foi frustrado.

Alocados em uma mesquita próxima por uma semana, civis descreveram a retirada dos arredores do presídio como "uma fuga em pânico" enquanto os combates tomavam a área. “Não trouxemos nada conosco. Só queríamos tirar as crianças”, disse Nashmiya al-Badir, de 36 anos. “Faz anos desde o último ataque como esse. Pensávamos que o EI estava longe de onde moramos.”

As perguntas sobre o futuro dos prisioneiros são abundantes agora. Embora a instalação tenha abrigado centenas de estrangeiros, entre eles norte-americanos, europeus e australianos, os governos locais deram poucas indicações de que pretendem repatriar seus cidadãos para julgamento ou reabilitação.

Shami, o porta-voz das SDF, disse que 400 prisioneiros foram transferidos para outras instalações, mas ele não identificou esses locais, citando preocupações de segurança. Alguns dos menores também foram transferidos para junto da população carcerária geral, disse ele, uma ação que levou os monitores de direitos humanos a expressarem preocupações.

Letta Taylor, líder de contraterrorismo da Human Rights Watch, disse que estava falando diretamente com detentos canadenses e australianos enquanto o cerco se desenrolava. “Eles parecem desesperados. Eles dizem que não têm comida ou água há dias, descrevem mortos e feridos em todos os lugares”, disse ela, acrescentando que temiam sair em rendição, pensando que seriam baleados pelas tropas curdas.

Milhares de estrangeiros estão espalhados por campos de deslocados que se tornaram instalações de detenção de fato, com poucos sinais de que seus governos intervirão em breve.

Um centro de detenção financiado pelos britânicos nas proximidades, construído para aliviar a superlotação do prédio antigo está em fase de conclusão, disseram autoridades. Mas outras instalações no nordeste já estão em situação perigosa, com defesas fracas e superlotação.

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