Tropas de Kadafi usaram escudos humanos, acusa ONG

Lista de crimes de guerra cometidos por soldados leais ao ditador da Líbia é extensa

Associated Press

30 de agosto de 2011 | 00h01

NOVA YORK - As tropas leais ao ditador da Líbia, Muamar Kadafi, usaram civis como escudos durante os combates com os rebeldes, afirmam ativistas dos direitos humanos. As práticas ainda incluem séries de estupros, massacres, sequestros e outros crimes de guerra cometidos pelos militares do coronel.

 

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A ONG Médicos pelos Direitos Humanos enviou uma equipe de investigadores para a cidade de Misrata durante uma semana em junho, logo depois de os insurgentes expulsarem os soldados de Kadafi do local. Após entrevistas com dezenas de moradores da cidade após dois meses de cerco, a organização encontrou evidências de crimes contra a humanidade e de guerra, que, além dos já citados, inclui o uso de escolas, mercados e mesquitas como depósitos de armas.

 

 

"Quatro testemunhas afirmaram que as tropas de Kadafi detiveram 107 civis e is usaram como escudos humanos para proteger locais de armazenamento de armas contra ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Misrata", afirma o relatório, divulgado nesta terça-feira, 30. De acordo com o documento, um homem disse que os soldados pegaram seus dois filhos e os colocaram em cima de um tanque de guerra para evitar que o blindado fosse alvo da aliança.

 

 

A entidade coletou cópias de ordens militares como evidências de que Kadafi mandou que suas tropas barrassem a entrada de bens em Misrata, levando a população a uma situação de calamidade, impedindo também o ingresso de ajuda humanitária. Durante o cerco à cidade, que foi palco de violentas batalhas entre rebeldes e militares do governo, foi reportada uma série crise.

 

Os estupros também foram uma "arma de guerra", afirma Richar Sollom, o principal redator do documento. "Uma testemunha indicou que as forças de Kadafi transformaram uma escola em um centro de detenções onde estupravam mulheres e garotas de até 14 anos", aponta o relatório, agregando que não foram encontradas evidência de que os soldados receberam medicamentos como Viagra para estimular as violações.

 

Essas práticas tornaram-se ainda piores por conta dos costumes islâmicos. Foram reportados vários casos em que as mulheres estupradas foram mortas por seus próprios parentes para afastar a "desonra" da família.

 

Devido à época em que visitou a cidade, a ONG só verificou os abusos das forças de Kadafi, e não possíveis crimes cometidos pela Otan ou pelos rebeldes. Ainda assim, a entidade pediu que o Conselho Nacional de Transição, o órgão de governo da oposição, mantenha a lei e a ordem, responsabilize os culpados e os impeça de ocupar posições de poder.

 

Outras entidades, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, também já publicaram documentos apontando evidência de abusos das tropas do coronel. Os três órgãos pediram que ambos os lados da guerra respeitem os prisioneiros e, além disso, se unam para construir uma Líbia pós-Kadafi.

 

"Criminosos precisam ser levados à Justiça e responsabilizados pelos seus atos. Vimos isso acontecer em lugares como na África do Sul, na Bósnia e na Ruanda. É uma experiência essencial para o país, e necessária para seguir em frente", disse Sollom.

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