Tropas na fronteira pretendem intimidar politicamente Kiev

Usar força militar seria apenas um plano B para Moscou, que teria mais interesse em manter Ucrânia fraca e dividida

Carol J. Williams*, Los Angeles Times/O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2014 | 02h01

Vladimir Putin pôs dezenas de milhares de soldados ao longo da fronteira oriental da Ucrânia. Usar seu Exército, porém, é provavelmente um plano B. Em vez de repetir o "cenário da Crimeia" - invadir, tomar e anexar território -, o Kremlin prefere manter a Ucrânia fraca e dividida, forjando uma mudança na maneira como ela é governada, dizem analistas.

Um aumento da autonomia regional às expensas do governo central obrigaria as autoridades ucranianas a equilibrar constantemente visões concorrentes do país para mantê-lo coeso, e, com isso, daria a Moscou um poder de veto por sua influência entre os russos étnicos do leste.

Alguns analistas dizem que a ideia de autonomia regional reflete a geografia complicada da Ucrânia e não deveria ser desprezada só porque está sendo defendida por Putin. Em visita ao leste da Ucrânia, na sexta-feira, o líder interino, Arseni Yatsenyuk, prometeu reformas constitucionais que dariam mais autonomia às regiões.

Moscou está promovendo sua proposta em reuniões diplomáticas, como a planejada para quinta-feira, em Genebra. Num sinal de desejo de recuperar influência na Ucrânia sem provocar uma guerra e novas sanções, o Kremlin concordou em incluir o chanceler em exercício, Andri Deshchytsia, na reunião com os EUA e a UE, apesar de considerar ilegítimo o governo interino.

O chanceler russo, Serguei Lavrov, numa reunião com o secretário de Estado americano, John Kerry, na semana passada, em Paris, reiterou o desejo da Rússia de a Ucrânia manter a "neutralidade", significando com isso que ela jamais procuraria ingressar na Otan.

Lavrov insistiu também que a presença de tropas na fronteira da Ucrânia era para exercícios, e Moscou "não tem absolutamente nenhuma intenção e nenhum interesse em cruzar a fronteira ucraniana". Analistas, porém, dizem que Putin está mantendo suas opções em aberto para o caso de não conseguir vender a ideia antes da eleição presidencial de 25 de maio na Ucrânia.

"É por isso que Putin pôs tropas na fronteira. Ele quer usar a ameaça da força militar para impor uma solução", disse William Pomeranz, vice-diretor do Instituto Keenan de Estudos Avançados Russos e professor de direito russo na Universidade Georgetown. "A construção e a nova redação de uma Constituição, porém, é um processo lento e a grande questão é se Putin conseguirá manter a pressão e está disposto a esperar ou se ele se sentirá compelido a agir enquanto tem vantagem militar no terreno. Essa é uma decisão que um homem tomará."

Os manifestantes pró-Rússia ocuparam edifícios públicos nas cidades orientais de Donetsk e Luhansk, mas não conseguiram provocar uma rebelião mais ampla, segundo Pomeranz. Putin sabe que uma invasão armada enfrentaria uma resistência muito maior nas regiões orientais do que na Crimeia, onde os russos étnicos são maioria.

Yatsenuk visitou Donetsk, centro da indústria de mineração ucraniana, na sexta-feira, para tranquilizar a minoria russa de que ela poderia continuar usando o russo como língua oficial. Ele não deu detalhes sobre que tipos de poderes as regiões poderiam ganhar numa reforma constitucional.

Separatistas armados - segundo Ucrânia e EUA, encorajados pelo Kremlin - ocupam as sedes do governo regional em Donetsk desde domingo. A visita do primeiro-ministro não conseguiu resolver o impasse, mas uma pesquisa realizada na semana passada revelou um apoio limitado aos separatistas. Somente 16% dos moradores locais pesquisados pelo Instituto de Pesquisa Social e Análise Política de Donetsk disseram que apoiam a ocupação armada de edifícios públicos, segundo a agência de notícias Unkrinform.

Uma pesquisa Gallup realizada no fim do mês passado para o Instituto Republicano Internacional revelou que somente 4% dos pesquisados na região leste queriam romper com a Ucrânia e se unir à Rússia.

Uma ironia do projeto de federalização de Putin para a Ucrânia é que ele gastou seus anos como líder no Kremlin desmantelando a estrutura federal da Rússia para centralizar o poder em Moscou. 

*Carol J. Williams é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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