Daniel Etter/The New York Times
Daniel Etter/The New York Times

Tropas sírias matam 16 manifestantes e conflito sectário já ameaça o Líbano

Forças de segurança de Assad voltam a abrir fogo contra civis que pedem democracia no país num dia em que dezenas de pessoas saíram às ruas contra o regime; em cidade do norte libanês, confronto entre alauitas e sunitas deixa ao menos três mortes

AP, Reuters e AFP, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2011 | 00h00

Tropas do ditador sírio, Bashar Assad, mataram ontem ao menos 16 pessoas na repressão aos protestos pró-democracia que reuniram dezenas de milhares de pessoas em várias cidades do país. E, num sinal de que a instabilidade que afeta o país desde março pode cruzar a fronteira, três pessoas morreram em confrontos sectários no Líbano.

De acordo com ativistas ligados à oposição síria, as mortes ocorreram nas cidades de Homs (no centro do país), Deir Azzor (no leste) e em Harasta (nos arredores da capital, Damasco). As passeatas, ainda segundo os dissidentes, reuniram milhares de pessoas em cidades de várias regiões do país, como Deraa, Latakia, Talbisseh e Qamishli.

Os manifestantes gritaram palavras de ordem contra o regime e em solidariedade a cidades sitiadas pelo Exército, como Jisr al-Shughour - cuja invasão provocou o êxodo de 10 mil refugiados para a Turquia. Desde o começo da repressão, 1,3 mil civis e 300 soldados morreram. Outras 10 mil pessoas foram presas.

"Qual foi nosso crime? Queremos liberdade e democracia, nada mais", disse Mohammed, um ativista sírio refugiado na Turquia que, temendo represálias, prefere não divulgar o nome completo.

Ele narrou cenas de violência extrema das tropas sírias contra a população. "Vi pessoas serem decapitadas com rajadas de metralhadora disparadas de helicópteros. Vi um homem ser torturado até a morte com ácido", declarou. Segundo o ativista, as tropas de Assad estão usando uma usina de açúcar em Jisr al-Shughour como tribunal para julgar os envolvidos nos protestos. Os julgamentos são sumários e a pena é a de morte.

A atriz Angelina Jolie, embaixadora da boa vontade da ONU, visitou um dos campos de refugiados na Turquia. A p0lícia turca não permitiu que a imprensa internacional cobrisse a visita.

De acordo com os dissidentes, duas cidades no norte do país continuam cercadas pelo Exército. Assad deve fazer um discurso amanhã. Será sua terceira aparição pública desde o início dos protestos. O líder sírio, cuja família está no poder há 41 anos, tem respondido às revoltas com um misto de violência e pequenas concessões políticas. As cidades de Deraa e Homs já foram alvo de ataques do Exército, ao passo que Assad prometeu abertura política e acabar com a medida de exceção que vigora no país desde 1963.

Sectarismo. Ainda ontem, o conflito deu o mais claro sinal de que pode contaminar o Líbano, um Estado com longo histórico de interferência síria. Ao menos três pessoas morreram na cidade de Trípoli, no norte do país, num confronto sectário entre sunitas e alauitas, seita muçulmana derivada do xiismo à qual pertence Bashar Assad.

Os confrontos começaram após moradores do bairro sunita de Bab al-Tebbaneh marcharem em apoio aos manifestantes sírios após as preces de sexta-feira. Alauitas do bairro de Jabal Mohsen reagiram com armas de fogo. Dois dos mortos eram civis e o terceiro era um soldado que estava de folga. Outras quatro pessoas ficaram feridas. Embora esses choques não sejam novos na cidade, o premiê libanês, Najib Mikati, classificou o incidente como suspeito.

"Conflitos de rua causam danos para a segurança da cidade e de seus habitantes", disse. "Dei instruções explícitas ao Exército para executar medidas punitivas com punho de aço. Ninguém está acima da lei." Cerca de 60% dos libaneses são muçulmanos, mas eles se dividem entre sunitas, xiitas, alauitas e drusos. Durante a ocupação do país pela Síria, entre 1976 e 2005, a minoria alauita teve benefícios.

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