Tropas sírias são maiores vítimas da violência e ONU é parcial, reage Assad

Em sua primeira entrevista à imprensa ocidental em quase nove meses de violentos distúrbios, o presidente sírio, Bashar Assad, negou ontem ser responsável pela repressão de opositores e disse que a maioria dos mortos na Síria é de partidários do regime e de militares. "Nós não matamos nosso povo. Nenhum governo no mundo mata seu povo, a não ser que seja comandado por um maluco", afirmou.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h05

Com um sóbrio terno escuro, falando pausadamente em inglês, cara a cara com a repórter Barbara Walters, da TV americana ABC, Assad afirmou que eventuais "excessos" foram cometidos "por indivíduos e não instituições" de seu governo.

A versão contraria as conclusões da investigação das Nações Unidas realizada no mês passado, segundo a qual o regime sírio cometeu crimes contra a humanidade ao conduzir políticas sistemáticas de sequestro, estupro, tortura e assassinato de opositores. Pelo menos 4 mil pessoas teriam morrido, revela o inquérito, conduzido pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro com base em depoimentos - ele não teve autorização para entrar na Síria.

"E quem disse que as Nações Unidas são uma instituição com credibilidade?", questionou o presidente sírio. "Há uma diferença entre uma política de repressão e alguns equívocos cometidos por certas pessoas. Há uma grande diferença", defendeu Assad. "Não houve ordens para matar ou para usar brutalidade."

A repórter confrontou o ditador com exemplos de atos bárbaros cometidos por tropas do governo contra civis, como a morte, tortura e emasculação de um garoto de 13 anos. Assad disse ter conversado com o pai do menino e questionou a veracidade das informações - embora exista um vídeo do corpo da vítima, feito quando o cadáver foi devolvido à família.

"Foram de casa em casa, prenderam crianças. Eu vi essas imagens", insistiu a repórter. "Para ser franco com você, Barbara, não acredito no que está dizendo", respondeu, calmo, Assad.

Questionado sobre se sentia algum tipo de culpa ou remorso, o ditador sírio respondeu negativamente. "Fiz o meu melhor para proteger o povo e você não pode sentir culpa quando faz o seu melhor. Lamentam-se as vidas que foram perdidas, mas você não sente culpa quando não matou o povo."

Assad disse que as tropas sírias não eram "suas forças", mas "do governo" de Damasco. A afirmação soou como uma espécie de ato falho, já que muitos analistas levantam dúvidas sobre a extensão do poder pessoal de Assad sobre as tropas do regime, que obedeceriam primeiramente a Maher, o irmão do ditador. "Eu não sou dono (das Forças Armadas). Sou o presidente. Não sou dono do país", explicou.

Provas. Além de fazer alertas sobre violações sistemáticas de direitos na Síria, a comissão da ONU e funcionários de alto escalão da organização afirmam que a crise no país já pode ser considerada uma "guerra civil". Estima-se que 25 mil militares sírios tenham desertado para combater o regime Assad.

A Casa Branca prontamente rejeitou as alegações de Assad de que ele não ordenou a repressão de opositores. "Simplesmente isso não é crível", afirmou o porta-voz Marc Toner.

"O mundo está testemunhando o que ocorre na Síria. Os EUA e muitos outros países ao redor do mundo juntaram-se para condenar a violência atroz na Síria, perpetrada pelo regime Assad, sabem exatamente o que está ocorrendo e quem são os responsáveis", completou o porta-voz. "Acho que todos que assistiram à entrevista concluíram que as respostas de Assad simplesmente não são críveis."

O momento escolhido pelo ditador para dirigir-se ao mundo é emblemático. A Síria tem sido alvo de sanções unilaterais dos EUA e da Europa, enquanto a Liga Árabe decidiu suspender Damasco e impor duras punições econômicas. Na semana passada, o bloco regional deu um passo a mais e publicou uma lista de 19 autoridades sírias que estão proibidas de viajar a qualquer país-membro da Liga.

A Turquia, até março um dos principais aliados de Assad, também adotou sanções contra Damasco. Ontem, Ancara anunciou que começará a explorar rotas comerciais para driblar o território sírio, usando via marítima até o Egito e terrestre pelo Iraque. / REUTERS e NYT

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