Trump, o grande caricaturista

O pré-candidato republicano identifica características destacadas dos políticos e as exagera em sua campanha

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2015 | 02h03

Confesso que não estou apenas preocupado com os ataques de Donald Trump contra os imigrantes e o livre comércio, mas também acho a estratégia da sua campanha realmente interessante. Ele não é, como as pessoas afirmam, o "antipolítico" Na verdade, Trump faz uma caricatura dos políticos. E como grande caricaturista, identifica características mais destacadas dos políticos e as exagera.

E uma característica que ele identificou e sobre a qual faz um retrato caricato é a facilidade com que os políticos de carreira olham direto para uma câmera e mentem e contam inverdades. Como muitos políticos passaram pelo escritório de Trump em busca de dinheiro ou endosso quando ele era apenas empresário, dizendo qualquer coisa que achavam que ele gostaria de ouvir, obviamente ele se especializou nesse tipo de manobra. E aprimorou a jogada.

Na verdade, se estivesse escrevendo um livro sobre esta campanha, eu iniciaria com a entrevista que Trump concedeu ao programa 60 Minutos da CBS em 27 de setembro. Trump exortou seus planos para uma assistência médica universal, dizendo a Scott Pelley: "vou cuidar de todos". E quando Pelley perguntou como faria isso, Trump ofereceu a maior citação que vimos até agora nesta campanha eleitoral de 2015:

"O governo vai pagar por isso. Mas vamos poupar muito dinheiro do outro lado. Mas para a maior (parte) será um plano privado e as pessoas poderão negociar ótimos planos de saúde dada a ampla concorrência - e poderão ter seus médicos, seus planos, enfim, poderão ter tudo".

Adoro esta última frase: "Elas poderão ter médicos, poderão ter planos, poderão ter tudo!".

E a parte melhor é que isso foi afirmado em um programa como 60 Minutes. Pobre Jeb Bush, ele não consegue ir tão longe assim. É somente um político exagerado dentro dos padrões. (Veja seu plano econômico). Trump é a caricatura, a versão industrial.

Mario Como fez uma afirmação que se tornou famosa: "Você faz campanha em poesia. E governa em prosa". Trump diz que "isso na verdade é para políticos picaretas. Farei uma campanha em fantasia e governarei em prosa. Por que não?"

Diante do ridículo de alguns planos fiscais dos pré-candidatos republicanos, Trump parece ter iniciado uma disputa armamentista em torno do "você pode ter tudo". Mesmo Bernie Sanders vem prometendo matrícula e mensalidades grátis nas faculdades públicas, mais benefícios previdenciários e creches gratuitas que serão pagas especialmente com os impostos cobrados do 1% que está no topo da pirâmide - nenhum compromisso para com a classe média.

E o novo presidente da Câmara, Paul Ryan, que nem mesmo está na disputa, também aderiu. Ryan taxou a decisão de Obama de anular o projeto do oleoduto de Keystone XL de "repugnante" e acrescentou que "se o presidente pretende passar o restante de seu mandato satisfazendo grupos de interesse, é sua decisão. Mas é errada".

Isso é algo realmente orwelliano: num momento em que o Partido Republicano se torna uma subsidiária 100% do setor de gás e petróleo, Ryan acusa Obama de satisfazer grupos de pressão; afirma que a decisão do presidente de bloquear um oleoduto destinado ao transporte de petróleo de xisto, um dos combustíveis mais sujos do mundo é "repugnante" e qualifica o combate à mudança climática como atuação de "grupos de pressão". Este sujeito está dentro dos debates republicanos.

Infelizmente, o próximo presidente não governará em fantasia, mas às voltas com alguma matemática cruel. De modo que a diferença entre esta campanha e o dia seguinte à eleição será realmente uma ducha fria.

Comecemos com a geopolítica. A amplitude do espaço vazio em termos de governança que terá de ser preenchido para, simultaneamente, destruir o Estado Islâmico, derrotar o ditador sírio Bashar Assad e reconstruir a Síria, o Iraque, Iêmen, Líbia, é impressionante. E, apesar de estarmos fazendo muito pouco na ajuda aos refugiados ensanguentados que chegam a países aliados como Turquia, Jordânia, Líbano e União Europeia - o custo também é astronômico. Quando o custo da ação e o da inação se tornam, ambos, proibitivos, você se vê diante de um problema terrível.

Coerência. Não só os planos de corte de impostos apresentados pelos principais pré-candidatos republicanos criam déficits enormes, mas algumas propostas de aumento de tributos formuladas por pré-candidatos democratas também não são coerentes. Como o colunista de economia do Washington Post, Robert Samuelson informou na semana passada, estudo realizado pela Brookings Institution concluiu que mesmo se a alíquota de imposto de renda subir de 39,6% para 50%, ela cobriria menos de um quarto do déficit do ano fiscal de 2015, sem falar em gerar fundos para aumentar os investimentos.

Se desejamos investir agora em mais infraestrutura - como deveríamos - e não sobrecarregar a próxima geração que deverá pagar por todos os baby-boomers que se aposentam, alguma coisa terá de ser feita, como disse Samuelson: "se os americanos da classe média precisam ou desejam um governo com maior ingerência, terão de pagar por isso. Cedo ou tarde um aumento de imposto será aprovado. Não existe nenhuma fada do dente".

E, finalmente, o dióxido de carbono na atmosfera atingindo níveis recordes jamais vistos no milênio, se queremos "controlar os efeitos inevitáveis" da mudança climática e "evitar os incontroláveis", isso certamente exigirá um preço sobre o carbono - e logo.

Portanto desfrute da diversão oferecida por esta campanha enquanto ela durar, pois o próximo presidente não governará em poesia, prosa ou fantasia, mas terá de encontrar uma solução de compromisso em situações conflitantes. E nós é que saímos perdendo./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

THOMAS L. FRIEDMAN É COLUNISTA, ESCRITOR E PRÊMIO PULITZER

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