Mandel Ngan/AFP
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Trump admite que minimizou perigo do coronavírus, revela livro de jornalista

'Não quero criar pânico', reagiu presidente americano após divulgação de entrevista concedida ao veterano Bob Woodward

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 17h46

WASHINGTON - O presidente Donald Trump admitiu em privado a gravidade da ameaça da covid-19 enquanto dizia à nação que a doença não era pior do que a gripe sazonal e insistia que o governo tinha tudo sob controle, indica o novo livro do jornalista veterano Bob Woodward.

“Você apenas respira o ar e é assim que (o vírus) passa”, disse Trump em uma entrevista por telefone em 7 de fevereiro. “E isso é muito complicado. É muito delicado. Também é mais mortal do que uma gripe extenuante”. “Isso é mortal”, enfatizou. Seus comentários foram gravados por Woodward e o áudio foi divulgado nesta quarta-feira, 9.

Para a Casa Branca, o livro é uma lembrança indesejada da gestão da pandemia liderada por Trump, em um momento em que o presidente americano tenta provar que o vírus está sob controle e acelerar a reabertura do país.

Em 19 de março, Trump disse a Woodward que minimizou deliberadamente o perigo. “Eu queria sempre minimizar”, disse o presidente. “Ainda gosto de minimizar porque não quero criar pânico”.

O candidato presidencial democrata Joe Biden disse nesta quarta-feira que o livro mostra que Trump "mentiu" para o povo americano. “Ele mentiu de bom grado sobre a ameaça que representava ao país durante meses”, afirmou. “Enquanto uma doença mortal atingiu nossa nação, ele falhou em fazer seu trabalho – de propósito. Foi uma traição de vida ou morte ao povo americano". 

“Ele tinha a informação”, afirmou o candidato um evento de campanha em Michigan. “Ele sabia o quão perigoso era”.

Trump respondeu a perguntas sobre o caso em entrevista coletiva na Casa Branca. “O fato é que sou uma líder de torcida por este país. Amo nosso país e não quero que as pessoas tenham medo. Não quero criar pânico, como vocês dizem", disse Trump aos jornalistas. “Certamente, não vou levar este país ou o mundo à loucura. Queremos mostrar confiança. Queremos mostrar força”.

Os trechos do livro, Rage, foram divulgados no Washington Post, onde Woodward trabalha como editor associado, e na CNN. Ele é baseado em parte em 18 entrevistas que o jornalista conduziu com Trump entre dezembro e julho. "Trump nunca pareceu disposto a mobilizar totalmente o governo federal e continuamente parecia empurrar os problemas para os Estados", escreveu Woodward sobre a pandemia. "Não havia uma teoria real de gestão do caso ou como organizar uma grande empresa para lidar com uma das emergências mais complexas que os Estados Unidos já enfrentaram".

A secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, disse que as palavras do presidente ao público foram projetadas para expressar confiança e calma em um momento de grandes desafios. "O presidente nunca mentiu para o público americano em relação à covid. O presidente estava expressando calma e suas ações refletem isso", disse McEnany.

Por vezes, os comentários públicos de Trump sugeriram que ele estava mais interessado em fazer com que as pessoas ignorassem a realidade da tempestade que se aproximava do que mantê-las calmas.  "Acho que o vírus...vai ficar bem”, disse Trump em 10 de fevereiro – três dias depois da entrevista em que afirmou que ele era "uma coisa mortal" e mais perigosa do que a gripe.

Os assessores e aliados do presidente americano disseram na época que Trump pretendia impulsionar a economia com sua abordagem otimista sobre o vírus, mesmo quando seu governo deu poucos passos concretos para se preparar para a pandemia que se aproximava.

“É verdade que o presidente Trump mentiu e pessoas morreram”, disse o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, de Nova York. Schumer disse que quando pensa em quantas pessoas morreram em seu Estado, “isso me deixa com raiva”. Ele acrescentou: “Quantas pessoas estariam vivas hoje se ele simplesmente dissesse a verdade aos americanos? ''

A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, disse que os comentários do presidente a Woodward mostraram fraqueza e desdém pela ciência. “O que ele estava realmente dizendo é: 'Não quero que ninguém pense que algo assim aconteceu no meu 'turno', então não vou chamar mais atenção para isso'", disse Pelosi à MSNBC.

Este é o segundo livro de Woodward sobre a Casa Branca de Trump. O primeiro, publicado em 2018, retratou o presidente de uma forma nada lisonjeira. De acordo com ex-funcionários da Casa Branca e republicanos, Trump ficou irritado com a publicação.

O presidente estava convencido de que, se tivesse falado com Woodward, poderia ter recebido uma descrição mais favorável no livro, de acordo com fontes próximas. Trump sempre teve Woodward em alta conta – ele considerava o jornalista como a maior estrela da área - e disse a assessores que insistia em ser entrevistado se Woodward escrevesse novamente, disseram as autoridades.

Vários senadores republicanos no Capitólio se recusaram a comentar o novo livro, dizendo aos repórteres que ainda não o haviam lido, mesmo quando informados de passagens importantes sobre o vírus. “Eu simplesmente não posso comentar sobre isso”, afirmou o senador Rob Portman. “Poderíamos todos ter feito as coisas de forma diferente? Sim, incluindo o Congresso. Todos nós demoramos um pouco para reconhecer a gravidade (da pandemia)”, acrescentou. /AP

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