Carlos Barria / Reuters
Carlos Barria / Reuters

Trump afirma que espera acordo comercial substancial com Reino Unido após Brexit

Presidente americano chegou na segunda-feira ao Reino Unido e elogiou líderes nacionalistas pró-saída do país da União Europeia

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2019 | 07h39
Atualizado 04 de junho de 2019 | 21h04

LONDRES - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no segundo dia de sua visita a Londres que espera alcançar um "acordo comercial muito substancial" com o Reino Unido após a saída do país da União Europeia (UE).

"Acredito que teremos um acordo comercial muito, muito substancial", afirmou Trump antes de conversar sobre comércio com empresários britânicos e americanos ao lado da primeira-ministra Theresa May, que pediu a construção de uma associação econômica "ainda maior" entre os países.

Elogiando a "grande aliança" entre os dois países, May respondeu que ela “seria ainda maior” se houvesse “um grande acordo bilateral”. O anúncio é mais uma tentativa de Trump de incentivar a saída do Reino Unido da UE sem acordo – o que ele vem estimulando desde que chegou à Casa Branca.

May foi a primeira líder estrangeira recebida na Casa Branca após a vitória eleitoral de Trump, mas a relação entre os dois países está longe de ser perfeita: o Reino Unido defende o acordo nuclear com o Irã e o Acordo de Paris, ambos denunciados por Washington.

Antes da visita, Trump afirmou que o Reino Unido não deveria pagar a conta da separação da UE – cerca de € 45 bilhões (R$ 197 bilhões). Na viagem, o presidente voltou a apoiar a ruptura radical com a UE. Nesta terça-feira, ele se encontrou com Boris Johnson, favorável a um Brexit sem acordo e favorito para substituir May. O presidente também conversou com Nigel Farage, líder nacionalista e eurocético. 

A agenda de Trump provocou críticas. O ministro britânico do Comércio, Liam Fox, afirmou que o Brexit “não pode ser usado como arma” para aqueles que procuram se aproveitar do Reino Unido. “A hipótese de uma saída sem acordo não pode ser tirada da mesa, caso contrário ficaremos sem cartas para negociar.” Já o líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, afirmou que Trump “quer se aproveitar do enfraquecimento do Reino Unido para obter um acordo” bom apenas para os EUA.

O temor se deve às dificuldades que o Reino Unido tem enfrentado para selar acordos comerciais. Segundo dados oficiais, 49% do comércio do país se dá com a UE, 15% com os EUA e 36% com outros países. Estimativas mostram que o país teria de renegociar 750 acordos comerciais, firmados por meio da UE, que perderiam a validade após o Brexit. Até fevereiro, Londres havia concluído apenas 45. 

Em termos financeiros, até agora, o Reino Unido conseguiu acordos que cobrem € 41,5 bilhões dos € 132 bilhões do comércio com a UE. Especialistas afirmam que seria muito difícil para os EUA negociarem um acordo comercial com o Reino Unido que compensasse as perdas do Brexit, porque os EUA são menos importantes para a economia britânica. Em 2017, os EUA representavam 18% das exportações e 11% das importações, enquanto a UE respondia por 45% e 53%, respectivamente.

Especialistas relacionam a extensão do comércio a três forças: o tamanho do parceiro comercial, a distância e a profundidade dos acordos comerciais. “UE e EUA têm economias de tamanhos parecido, mas fazemos três vezes mais comércio com a UE do que os EUA, porque ela está mais perto”, disse Alan Winters, da Universidade de Sussex. 

Para compensar qualquer queda após o Brexit, o comércio entre Reino Unido e EUA teria de crescer em proporção maior – cada queda de 10% do comércio com a UE exigiria um aumento de 37% no comércio com os EUA. Além de não compensar as perdas, analistas afirmam que, em um mundo pós-Brexit, o Reino Unido será forçado a fazer mais concessões. 

Em fevereiro, a Casa Branca publicou um relatório com diretrizes para um acordo comercial com o Reino Unido, defende uma linha-dura na negociação para garantir “acesso abrangente” a produtos agrícolas americanos na Grã-Bretanha. 

“O acordo que os americanos têm em mente está mais próximo de um relacionamento abusivo com um país vulnerável”, disse ao Estado David Henig, diretor do Centro Europeu de Política Econômica Internacional. “Trump parece mais interessado em uma diplomacia tarifária, de embate, que tenta obter o máximo de vantagem a qualquer custo.”

Para especialistas, o cenário reflete o reduzido poder de barganha que os britânicos terão após o Brexit. “O Reino Unido negociará como um país de 66 milhões de pessoas, enquanto a UE representa um bloco de 500 milhões”, afirma Henig. 

O presidente americano criticou diversas vezes a estratégia de negociação da primeira-ministra com Bruxelas e pressiona o Reino Unido para que exclua a gigante da tecnologia chinesa Huawei de sua rede de 5G por razões de segurança, sugerindo que pode prejudicar a cooperação de inteligência entre os dois países.

Uma autoridade do governo britânico disse ao The Times que May "não vai pedir desculpas" por ter decidido, segundo a imprensa, permitir que a Huawei construa partes não vitais da próxima geração de internet móvel do país.

Ainda nesta terça, Trump e a premiê tomaram café da manhã acompanhados por Ivanka Trump, o duque de York e dirigentes de algumas empresas, numa tentativa de reforçar os laços comerciais entre os dois países. À noite, será oferecido um jantar na residência do embaixador, com a presença da rainha Elizabeth II, do príncipe Charles e sua mulher, Camila.

'Baby Trump' nos protestos

Em meio à visita de Trump, estão previstos protestos em diferentes cidades britânicas, incluindo uma "demonstração nacional" em Trafalgar Square.

Os manifestantes querem protestar contra as ideias defendidas pelo presidente americano. "Todas as pessoas que representam diferentes setores hoje vêm juntas para mostrar oposição, não só à pessoa, mas às ideias e ao tipo de visão do mundo que ele propõe", disse o manifestante Alex Kenny.

Convocados por diversas organizações de defesa dos direitos humanos, da luta contra as mudanças climáticas e contra a guerra começaram a se reunir nesta manhã em frente ao Parlamento britânico.

Uma contagem regressiva antecedeu a apresentação de um enorme balão representando um bebê Trump laranja e de fralda, já usado nas manifestações de 2018, por ocasião de outra visita do presidente americano. / AFP, AGÊNCIA BRASI, COM RODRIGO TURRER

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