AFP PHOTO / Fabrice COFFRINI
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Trump ameaça liberdade de imprensa, denuncia representante da ONU

Chefe de Direitos Humanos da organização, Zeid Al Hussein, afirma que presidente americano está incitando violência contra jornalistas e 'conduzindo de forma imprudente' sua relação com a população

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2017 | 09h18

GENEBRA - O Alto comissário para Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad Al Hussein, acusou nesta quarta-feira, 30, o presidente americano, Donald Trump, de ameaçar a liberdade de imprensa, "incitando a violência" contra jornalistas e "conduzindo de forma imprudente" a relação com sua população. O gesto foi um raro ataque de um alto funcionário das Nações Unidas contra um presidente dos EUA, o maior doador da entidade. 

Hussein, que chefia os Direitos Humanos da organização, considera que as declarações derrogatórias de Trump contra jornalistas ao longo dos meses poderiam ser equivalentes ao incitamento à violência, diante do risco de que alguns de seus seguidores optem por atacar os profissionais de imprensa. 

Na semana passada no Arizona, Trump defendeu sua atitude diante dos incidentes racistas na Virgínia e optou por criticar a imprensa pela forma como relatou os acontecimentos. Para ele, os jornalistas são "pessoas verdadeiramente desonestas". 

Para Hussein, tal postura pode ser perigosa. "Eu me pergunto: se um jornalista nos EUA for atacado, ele (Trump) tem responsabilidade?", questionou. "O que ele faz não é incitar ataques a jornalistas?"

Na avaliação do representante da ONU, "demonizar a imprensa é algo venenoso". Hussein cita o caso do Camboja, onde o governo decidiu na semana passada fechar algumas redes de televisão e, para justificar sua ação, citou os comentários de Trump sobre a imprensa. 

Para ele, as declarações de um chefe de Estado também podem gerar "incitação, medo, autocensura e violência". "É bastante incrível quando se pensa que a liberdade de imprensa, não apenas uma das bases da Constituição americana mas também algo que os EUA defendem ao longo dos anos está agora sob ataque de seu presidente", criticou.  "Trata-se de uma reviravolta incrível e com consequências perigosa."

"Isso é uma incitação à violência. Se isso ocorre nos EUA, imagine nos outros países onde o jornalismo é ainda mais ameaçado", declarou Hussein. 

Ao longo dos meses, Trump tem rejeitado críticas por parte da imprensa, atacando veículos como CNN, New York Times e outros por estarem supostamente publicando o que ele considera serem "fake news" (notícias falsas). 

O americano também tem usado termos como "jornalismo lixo" para se referir à CNN. "Chegou o momento de desafiar a imprensa por seu papel de fomentar divisões e, sim, eles estão tentando tirar de nós a nossa história e patrimônio", declarou Trump. 

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