Mark Wilson/AFP
Mark Wilson/AFP

Trump promete 'estratégia mais agressiva' para o Afeganistão

Presidente diz que retirada precipitada criaria vácuo que seria aproveitado por terroristas, mas não anuncia o aumento das tropas, como se esperava

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 23h21

Frustrando a expectativa de que definiria o aumento de tropas americanas no Afeganistão, o presidente Donald Trump anunciou nesta segunda-feira à noite uma “nova estratégia” para a mais longa guerra da história dos EUA sem dar detalhes sobre como pretende confrontar a emergência do Taleban e outros grupos terroristas no país.

As grandes novidades do plano são a decisão de não definir um prazo para a saída militar do Afeganistão e o aumento da pressão sobre o vizinho Paquistão para impedir que os extremistas continuem a usar seu território para combater o governo de Cabul. “O Paquistão tem muito a ganhar ao colaborar conosco em nossos esforços no Afeganistão. E tem muito a perder por continuar abrigar terroristas”, afirmou Trump, lembrando os bilhões de dólares repassados pelos EUA ao país.

"Uma retirada precipitada criaria um vácuo que os terroristas - incluindo o ISIS e a Al-Qaeda - preencheriam instantaneamente, assim como aconteceu antes do 11 de Setembro", declarou Trump, usando um acrônimo para o grupo do Estado Islâmico.

“Nós estamos mudando de condições definidas pelo tempo para definidas no terreno”, disse o presidente em pronunciamento à nação a partir do Forte Myer, na Virgínia. “Não vou dizer quando vamos atacar, mas vamos atacar”, ressaltou. Trump repetiu as promessoas de campanha de não se engajar em programas de promoção da democracia e exportação de valores americanos. “Não estamos de novo construindo nações, estamos matando terroristas.”

Segundo o presidente, "algum dia, depois de um esforço militar efetivo, talvez seja possível ter um acordo político que inclua elementos do Taleban no Afeganistão (...) mas ninguém sabe se ou quando isso acontecerá".

Trump deixou claro que "os EUA continuarão a apoiar o governo e os militares afegãos enquanto enfrentarem os talibãs no campo" de batalha, mas advertiu que Cabul não deve considerar o apoio dos EUA como um "cheque em branco".

O presidente usou seu discurso para falar de maneira indireta dos conflitos provocados por uma manifestação de supremacistas brancos e neo-nazistas em Charlottesville na semana passada. Sua resposta ao conflito foi criticada por democratas e republicanos e membros do próprio gabinete.

Nesta segunda-feira, Trump usou as Forças Armadas como uma metáfora da sociedade americana, na qual pessoas de diferentes raças, etnias e religiões se unem em busca de um objetivo comum. “Seus integrantes fazem parte da mesma família, a família americana”, afirmou. “Quando uma parte da América é ferida, todos nós somos feridos. E quando um cidadão sofre injustiça, todos nós sofremos juntos”, disse o presidente, em contraste com suas declarações belicosas da semana passada.

A estratégia de Trump abrange ainda a coordenação de esforços militares, diplomáticos e econômicos e o aumento do poder do Pentágono para definir as regras e as condições de combate no Afeganistão. “Vou expandir a autoridade das Forças Armadas para mirar as redes terroristas e criminosas que semeiam o caos no Afeganistão.”

Trump criticou seu antecessor, Barack Obama, por definir um prazo para a retirada das tropas americanas do Afeganistão - o democrata determinou que isso ocorresse em 2014. No fim, ele acabou mantendo 8.400 soldados no país. Havia a expectativa de que Trump anunciasse nesta segunda-feira o aumento em 50% desse contingente, com o envio de mais 4 mil soldados ao Afeganistão.

Apesar de não se comprometer com um número específico, o presidente deu indicações de que o contingente poderá crescer.

A expansão da presença militar americana no Afeganistão contraria posições históricas de Trump, favoráveis à retirada das tropas do país. Também contraria sua promessa de campanha de reduzir intervenções no exterior e dar prioridade a gastos em programas domésticos, dentro da filosofia “América em primeiro lugar”.

 

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