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Trump aperta o torniquete

Incentivado com os recentes ganhos, presidente americano amplia imposição de tarifas

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 03h00

A semana foi repleta de lições sobre os métodos do presidente Donald Trump. Ele confirmou a cúpula com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, obteve vastas concessões comerciais da China e abriu uma nova frente, ao anunciar a reimposição de tarifas contra o Canadá, o México e a União Europeia.

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A confirmação da cúpula no dia 12 em Cingapura foi o desfecho de rodadas impressionantes de negociações em três pontos do globo, algumas delas simultâneas. O anúncio foi feito depois da visita de Kim Yong-chol, vice-presidente do Partido dos Trabalhadores e principal conselheiro de Kim Jong-un. 

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General e ex-chefe da agência de espionagem e operações especiais, Kim Yong-chol é veterano de negociações anteriores com os EUA. Ele se reuniu com o secretário de Estado, Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, que também foi duas vezes a Pyongyang.

Enquanto isso, na Coreia do Sul, Sung Kim, ex-embaixador americano em Seul, liderava uma delegação de funcionários da Casa Branca e do Pentágono. Do lado norte-coreano, estava a vice-chanceler Choe Son-hui, a mesma que chamou de “estúpida” a declaração do vice-presidente americano, Mike Pence, associando a desnuclearização da Coreia do Norte à da Líbia, o que levou Trump a cancelar a cúpula, na semana anterior.

Paralelamente, equipes americanas e norte-coreanas levavam adiante os preparativos logísticos da cúpula em Cingapura, sem a certeza de que ela ocorreria.

Por que isso está funcionando, apesar dos objetivos divergentes e desconfianças entre Estados Unidos e Coreia do Norte? Acima de tudo, por uma convergência de estilos. Trump tem um tipo de pragmatismo sem princípios e sem sentimentos que coincide com a cultura do Leste Asiático. Estou em Pequim. Deste lado do mundo, os resultados falam mais alto do que as suscetibilidades. 

Trump toma decisões de cima para baixo. Exatamente como Kim. Por isso o processo começou ao contrário do que costuma ser: em vez de reuniões exaustivas entre funcionários de mais baixo escalão, para ir subindo gradualmente, os dois mandatários decidiram de forma impulsiva que iam se encontrar, sem saber ao certo o que estaria sobre a mesa. É assim que o mundo asiático funciona: empiricamente, na tentativa e erro.

Na terça-feira, o governo americano confirmou a intenção de impor restrições aos investimentos chineses, cotas de importação e tarifas de 25% sobre produtos tecnológicos no valor de até US$ 50 bilhões. No dia seguinte, uma delegação de 50 funcionários americanos chegou a Pequim, para preparar a vinda, neste fim de semana, do secretário de Comércio, Wilbur Ross.

A China anunciou na sequência a redução de tarifas de importação de roupas, sapatos, utensílios para cozinha e artigos esportivos (de 15,9% para 7,1%), e de eletrodomésticos (20,5% para 8%). Além disso, prometeu relaxar as regras sobre investimentos estrangeiros em energia, exploração de recursos naturais, infraestrutura e transportes. O país já havia anunciado isso em relação a automóveis, estaleiros e a indústria da aviação.

Mas talvez o mais significativo: depois de uma reunião do gabinete, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, prometeu que “não haverá mais a transferência forçada de tecnologia de empresas estrangeiras, e violações dos direitos de propriedade intelectual serão castigadas com todo o rigor da lei”. 

Ou seja, os estrangeiros não terão mais que ter sócios chineses que sugam sua tecnologia para depois concorrer com eles. A concessão é um ponto crucial da transição da China, de copiadora de tecnologias, para uma economia avançada. 

Tudo isso vinha sendo exigido por Donald Trump. Incentivado por esses ganhos, o presidente americano agora dá mais um aperto no torniquete, ampliando a imposição das tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio para o Nafta e a União Europeia. Aonde isso vai parar, provavelmente nem Trump sabe.

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