Seth Herald/Reuters
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Trump apoia protestos por reabertura da economia e joga responsabilidade a governadores

Um dia antes, presidente disse a governadores que caberia a eles decidir quando retomar as atividades

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 20h18

Quando a Casa Branca apresentou o plano para afrouxar as medidas de isolamento nos Estados Unidos, na quinta-feira, o presidente Donald Trump parecia estar dando um passo atrás. Apesar de propor um cronograma de retomada, Trump abriu mão do discurso de que teria "autoridade total" para decidir pela reabertura da economia americana e, em uma reviravolta, disse a governadores que caberia a eles decidir quando retomar as atividades.

Um dia depois, no entanto, Trump mostrou que não irá distensionar a relação com os governos estaduais e passou a apoiar protestos contra as medidas de isolamento - que foram impostas pelos Estados seguindo a diretriz do governo federal.

"Liberem Minnesota!", escreveu Trump de manhã na sua conta no Twitter, emendando duas postagens com o mesmo tom sobre Michigan e Virgínia. As publicações são um apoio do presidente a manifestantes dos três Estados que pedem o fim das medidas de distanciamento social.

Pouco antes das mensagens, a emissora Fox News, com linha editorial favorável ao governo americano, mostrou cenas de protestantes conservadores em frente à residência do governador de Minnesota e de moradores de Michigan contestando as ordens estaduais de isolamento. 

O apoio aos protestantes contradiz o que o próprio presidente vem pedindo há um mês: que a sociedade americana obedeça as medidas de distanciamento social extremo. Em Michigan, não há sinal de especialistas de que a situação permita a retomada das atividades neste momento. Com 30 mil casos de coronavírus, é o quarto Estado dos EUA com mais infectados e o terceiro com mais mortes, com relatos de pacientes que morreram no corredor de hospitais superlotados em Detroit. 

Dos 50 Estados americanos, 43 têm ordens para que as pessoas fiquem em casa como estratégia para combater o vírus, seguindo as diretrizes da Casa Branca. Mas Trump criticou três Estados chefiados por governadores democratas e relevantes na contagem de votos do Colégio Eleitoral. Ao ganhar Michigan por margem apertada em 2016, Trump mudou a composição do mapa eleitoral. Desde então, o presidente vem dizendo que quer carregar com ele os votos de Minnesota na disputa de 2020.

Com uma plataforma política calcada no bom desempenho econômico, Trump se vê pressionado pela recessão mundial gerada pela pandemia. Ao menos 22 milhões de novos desempregados foram registrados nos EUA nas últimas quatro semanas, enquanto o país segue as ordens de paralisação.

De outro lado, o presidente americano, que demorou para dar respostas à disseminação do vírus, está sob o escrutínio da opinião pública à medida que o número de mortes nos EUA avança e o país se mantém como epicentro mundial de propagação do vírus. Na última semana, as pesquisas de opinião mostraram que a taxa de desaprovação de Trump cresce dia após dia, na casa dos 55%, enquanto sua aprovação cai.

Ao apresentar o plano de reabertura, que é gradual e elaborado em parceria com especialistas do Centro de Controle de Doenças (CDC) americano, Trump transferiu a responsabilidade da decisão aos governadores e começou a pressionar pela reabertura da economia. Na ponta, governos estaduais dizem que mesmo para implementar o projeto da Casa Branca precisam de ajuda do governo federal, como o acesso a mais testes. 

Na sexta-feira, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, disse que a Casa Branca precisa ajudar os Estados a se munir de testes. A capacidade de testagem é uma das exigências apontadas no plano da Casa Branca para afrouxar o isolamento. Mas especialistas e governadores têm alertado que não há teste em quantidade suficiente para atender os requisitos e iniciar a reabertura da economia com segurança.

"Ele deveria gastar mais tempo fazendo e menos tempo reclamando. Saia daí e faça o trabalho", escreveu Trump no Twitter sobre o governador de Nova York, enquanto Cuomo fazia na sexta-feira sua coletiva diária sobre a situação do Estado. O governador democrata respondeu em tempo real: "Se ele está sentado em casa assistindo TV, deveria levantar e ir ao trabalho". 

Os sinais de que Nova York conseguiu achatar a curva de infecções são animadores nos EUA, mas o número de mortes diárias ainda é alto, tanto no Estado como no País. Os EUA já tem mais de 33 mil mortes, tendo registrado quase 4,5 mil mortes pelo coronavírus em 24 horas. 

Um novo modelo estatístico proposto pela Universidade doTexas, em Austin, aponta que as mortes por covid-19 nos EUA não devem atingir o pico antes de 7 de maio. O estudo usa informação de geolocalização de celulares para avaliar o impacto das medidas de distanciamento social.

Os dados usados pela Casa Branca, de um instituto médico da Universidade de Washington, estimam que o pior já passou nos EUA. Para os pesquisadores de Austin, que usam o modelo da Casa Branca como base, mas adicionam outras informações, no entanto, isso só é verdade para os Estados de Nova York e Louisiana. 

 

Depois do plano da Casa Branca, alguns Estados começam a ensaiar as medidas de reabertura. É o caso do Texas, cujo governador republicano encorajou negócios a abrirem a partir do próximo dia 24 para retirada de produtos que tenham sido previamente encomendados.

Os parques estaduais no Estado vão reabrir na segunda-feira, mas visitantes precisam estar com máscaras no rosto. Em Idaho, o governo alertou que negócios não essenciais poderão reabrir no dia 30, desde que respeitando regras de distanciamento social. Vermont e Wisconsin também devem dar início a um plano gradual de reabertura. Em Ohio, o governador quer iniciar um plano próprio de reabertura lenta a partir de maio.

Outros governadores já avisaram que vão estender a quarentena, como Nova York, outros seis Estados da região, e o Distrito de Columbia, que vão ao menos até 15 de maio com as restrições. O governo da Pensilvânia afirmou que a reabertura exige uma quantidade adequada de equipamentos de proteção para médicos e queda nos casos, o que ainda não há previsão para acontecer.

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