Jonathan Ernst/Reuters
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Trump exalta ruptura de países árabes com Catar, parceiro militar dos EUA

Presidente americano vê ‘começo do fim do terror’ na decisão de isolar emirado que abriga principal base americana no exterior, com 10 mil militares; país é principal ponto de lançamento de ataques contra radicais do Estado Islâmico

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2017 | 16h44
Atualizado 06 de junho de 2017 | 20h58

Sede da maior base militar dos EUA no Oriente Médio e aliado crucial dos americanos na luta contra o Estado Islâmico, o Catar transformou-se no mais recente alvo da política externa de Donald Trump difundida no Twitter. O presidente americano exaltou nesta terça-feira, 6, a ruptura de países árabes com o emirado, o que provocou uma crise diplomática.

“Durante minha recente viagem ao Oriente Médio eu afirmei que não poderia mais haver financiamento à ideologia radical. Os líderes apontaram para o Catar – olhem!”, escreveu o presidente dos EUA em um post publicado às 8h15 de hoje. 

Em seguida, ele atribui a sua influência a decisão da Arábia Saudita e de outros aliados – Emirados Árabes, Egito, Bahrein, Iêmen, Maldivas e Mauritânia – de cortar laços diplomáticos e comerciais com o Catar, o que jogou a região na que pode ser a mais grave crise desde a Guerra do Golfo, em 1991. 

“É tão bom ver que a visita à Arábia Saudita com o rei e 50 países está rendendo frutos. Eles disseram que adotariam uma linha dura contra o financiamento (...) do extremismo e todas as referências apontavam para o Catar. Talvez esse seja o começo do fim do horror do terrorismo!”, escreveu Trump em dois tuítes sucessivos.

Cerca de 10 mil militares dos EUA estão na base do Catar, que é o principal ponto de lançamento de ataques contra o Estado Islâmico na região.

Segundo a imprensa americana, diplomatas e militares dos EUA reagiram negativamente ao ver o presidente atacar um aliado crucial e tomar partido em uma disputa entre países árabes, em vez de intervir para tentar resolvê-la. 

O pretexto para o corte de relações foi o suposto financiamento do Catar a grupos extremistas, argumento frágil diante da promoção de uma das mais fundamentalistas interpretações do Islã por parte da Arábia Saudita.

O real motivo parece ter sido a suposta manifestação de simpatia do líder do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, em relação ao Irã e a Israel. No mês passado, a imprensa estatal publicou artigo que trazia elogios dele aos dois países, mas seu governo reagiu com a afirmação de que o texto era falso e havia sido plantado por hackers. 

Segundo a CNN, investigadores dos EUA acreditam que a ação foi promovida por hackers russos. Ainda de acordo com a emissora, o FBI enviou uma equipe a Doha para ajudar o governo a identificar os responsáveis pela publicação das declarações supostamente falsas. Poucos dias depois do artigo ser veiculado, Al Thani telefonou para Hassan Rohani para cumprimentá-lo pela reeleição no Irã, o que enfureceu os sauditas.

O Pentágono reiterou sua cooperação com o Catar e disse que continuará a operar a base militar no país. O porta-voz Jeff Davis preferiu não fazer comentários sobre o conflito entre as declarações e Trump e a importância estratégica do país no combate ao Estado Islâmico. “Eu não posso ajudá-lo com isso”, respondeu Davis em um entrevista coletiva quando questionado sobre o assunto.

O secretário de Defesa americano, James Mattis, telefonou para sua contraparte no Catar, mas o conteúdo da conversa não foi revelado.

O rompimento de relações deixa o Catar isolado diplomática e fisicamente. A única fronteira terrestre do país é com a Arábia Saudita. A TV Al-Jazeera, de propriedade do Catar, disse que caminhões estavam estacionados na fronteira, do lado da Arábia Saudita, de onde vem grande parte dos alimentos consumidos pela população local.

O Catar tem a segunda mais elevada renda per capita do mundo, segundo o CIA Fact Book, mas um bloqueio por tempo indeterminado pode afetar o país. As ações de empresas locais caíram nesta terça-feira e a moeda ficou sob pressão, depois que alguns investidores deixaram de comprá-la.

 

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