Travis Dove/NYT
Travis Dove/NYT

Trump aposta no medo e fala em ‘ameaça socialista’ de Biden

Ideia é repetir a fórmula vitoriosa em 2016 e vencer a eleição apenas com voto do eleitorado conservador

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

WASHINGTON - Donald Trump fará na noite desta quarta-feira, 26, o discurso de aceitação de sua candidatura pelo Partido Republicano à reeleição. O objetivo é repetir sua estratégia de 2016: apresentar o opositor como uma ameaça. A convenção desta semana foi focada na ideia de que um eventual governo de Joe Biden colocará os EUA na rota do socialismo, uma narrativa que Trump adotou contra Hillary Clinton há quatro anos.

 A manutenção da retórica é sinal de que a campanha pretende empolgar uma base já existente, e não convencer novos eleitores. 

Trump polariza opiniões: há os eleitores que o amam e os que o odeiam. Poucos têm dúvida sobre o que pensar a respeito do republicano, que chegou à Casa Branca prometendo deportar todos os imigrantes ilegais e construir um muro na fronteira com o México – e garantiu que a conta seria paga pelos mexicanos.

A aposta da campanha neste ano consiste em expandir a base já conquistada e tentar conter uma alta participação de eleitores democratas. Em 2016, Trump teve o voto da classe trabalhadora branca, especialmente homens brancos sem diploma. Para 2020, ele continua a contar com esse eleitorado e, por isso, mantém o discurso contra o socialismo e em defesa da economia americana, plataformas que têm entrada em Estados-chave, como Michigan e Wisconsin. 

A questão é se a estratégia de 2016 será suficiente para o presidente manter a base já conquistada e garantir a maioria de votos no colégio eleitoral, sem fazer nenhum aceno para os eleitores independentes. Trump chega ao último dia da convenção com média de 42,2% de intenção de voto, ante 50,6% de Biden – e mau colocado nos Estados-chave. 

No entanto, pesquisadores do Brookings Institute apontam que há margem para Trump expandir o número de eleitores dentro da base que já possui, se repetir o comparecimento às urnas da classe trabalhadora branca de 2004, na eleição de George W. Bush, em Estados cruciais para a vitória. 

Segundo os pesquisadores William Galston e Elaine Kamarck, esse segmento do eleitorado participou mais da eleição de 2004 em Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. As pesquisas atuais mostram Trump atrás de Biden nos três Estados. Em todos eles, parte do chamado Cinturão da Ferrugem, Trump venceu Hillary em 2016 por uma margem apertada.

O trabalho da campanha republicana é, portanto, levar às urnas mais eleitores que são parte de um mesmo segmento demográfico que já votou nele há quatro anos. Por isso, a receita é manter o discurso de ameaça, que passou a englobar neste ano também a acusação de que os democratas querem “destruir os subúrbios” americanos – onde vive a classe média branca de alta escolaridade. 

A ideia é evitar que mulheres brancas que vivem nos subúrbios, que não se empolgaram com Hillary, pulem para o barco de Biden. Para isso, os republicanos acusam o candidato democrata de apoiar as ideias dos manifestantes do movimento Black Lives Matter, que pedem para tirar recursos da polícia, apesar de Biden já ter dito que se opõem à medida.

Em 2016, a tática do republicano foi beneficiada pelo desgaste natural do eleitorado depois de oito anos de governo democrata e pelo fato de Hillary não ser uma candidata popular. Na época, Trump tinha a seu favor também a retórica de que era um “outsider”, uma narrativa que, como presidente, não consegue mais utilizar. 

Para 2020, o discurso de campanha estava pronto antes da pandemia: Trump surfava nos bons resultados econômicos e na taxa mais baixa de desemprego da história, mas a pandemia do novo coronavírus, somada à forte recessão e à agitação social dos protestos antirracismo jogaram por terra a estratégia inicial.

Agora, resta a Trump, como candidato, manter o apelo ao medo e à ideia de que Biden representa a esquerda radical. O democrata não chega a ser um candidato popular, mas há menos resistência a seu nome entre os eleitores, na comparação com Hillary. 

O fato de ele não empolgar é visto como uma vantagem no momento em que parte dos eleitores anti-Trump está cansada da retórica inflamada do atual presidente. Como vice de Barack Obama, ele carrega também o capital político do ex-presidente entre o eleitorado negro, que teve taxas de participação menores em 2016. 

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