REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

Trump autoriza o envio de militares para a fronteira com o México

Objetivo da medida seria conter imigração ilegal enquanto Congresso não avalia emenda para construção de muro, promessa de campanha do presidente americano

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2018 | 23h13

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, assinou nesta quarta-feira, 4, a autorização para o envio de militares para a fronteira com o México. A justificativa para o envio da Guarda Nacional é frear a entrada irregular de imigrantes enquanto o Congresso não aprova a liberação de verbas para a construção de um muro na fronteira.

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A medida foi anunciada após quatro dias de fúria de Trump contra uma caravana de imigrantes da América Central que atravessa o território mexicano e pretendia chegar à fronteira com os Estados Unidos. Na terça-feira o grupo chegou ao estado de Oaxaca, no México, e desistiu de continuar o trajeto.

Na Casa Branca, a Secretaria de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, disse que Trump "ordenou que os homens da Guarda Nacional sejam destacados na fronteira sul". "Esperamos que a mobilização comece imediatamente", disse Nielsen, embora ainda seja necessário assinar "memorandos de acordo" com os governadores dos Estados que fazem fronteira com o México.

Nesta quarta-feira, Nielsen disse que havia estado "em contato com as contrapartes no México" e garantiu que esses interlocutores "entendem o desejo de nossa administração, assim como a deles, para controlar a entrada ilegal no país".

O governo do México disse nesta quarta que o efetivo da Guarda Nacional que os Estados Unidos pretende deslocar para a fronteira comum não portará armas nem fará controle migratório ou alfandegário.

"A Guarda Nacional somente realizará trabalhos de apoio ao Departamento de Segurança Interior", esclarecer a chancelaria mexicana em um comunicado após a reunião em Washington de seu titular, Luis Videgaray, com a secretaria de segurança interior, Kirstjen Nielsen.

Usar militares para proteger a fronteira não é incomum. Em 2006, o presidente George W. Bush enviou 6 mil soldados da Guarda Nacional para a fronteira com o México. Em 2010, Barack Obama mandou 1,2 mil militares com o objetivo de atenuar as consequências da violência entre os cartéis mexicanos. Em 2014, mil homens da Guarda Nacional policiaram a fronteira.

No entanto, o anúncio sobre a Guarda Nacional foi formulado depois que os responsáveis pela caravana "Via-crúcis Migratória" anunciaram que o grupo terminará sua marcha na Cidade do México, desistindo de chegar à fronteira.

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"Nosso trabalho termina na Cidade do México e se outras pessoas precisarem de acompanhamento, teremos uma equipe de apoio na fronteira, mas terão que viajar por conta própria", indicou à AFP Irineo Mujica, diretor da ONG Pueblo sin Fronteras, que desde 2010 realiza esta simbólica marcha para dar visibilidade ao drama dos migrantes.

Dezenas de migrantes que viajam com a caravana, parada desde o último fim de semana em Matías Romero, no estado de Oaxaca, preparavam-se para seguir por conta própria o percurso até a fronteira. Alguns deles têm visto para transitar pelo México por 30 dias.

Cerca de 80% são hondurenhos, e os outros, guatemaltecos, salvadorenhos e nicaraguenses. A "Via-crúcis Migratória", que há 10 anos busca conscientizar sobre as agressões e os maus-tratos sofridos por milhares de pessoas na rota aos Estados Unidos, costuma ser realizada em trechos curtos dentro do território mexicano.

Mas, este ano, o protesto chegou aos ouvidos de Trump, que desde domingo escreveu diversos tuítes enfurecidos.

O presidente americano advertiu que a "galinha de ovos de ouro do Nafta", em plena renegociação, estava em jogo e ameaçou militarizar a fronteira de mais de 3.000 km com o México.

Trump assegurou que suas ameaças fizeram com que o governo mexicano dispersasse a caravana, que começou em Tapachula, na fronteira com a Guatemala.

No entanto, a chancelaria mexicana garantiu que o movimento estava se desfazendo por causa da "decisão de seus participantes".

Os líderes da 'Via-crúcis' asseguraram que o governo mexicano não atacou seus membros antes ou depois das declarações acaloradas de Trump.

A decisão de não chegar à fronteira com os Estados Unidos deve-se ao alto número de migrantes envolvidos, cerca de 1.500, segundo Mujica. "Viajam muitas crianças, 450 (...) e subir no trem, como fazíamos antes, seria uma loucura", acrescentou Mujica.

"O que eles querem é um lugar para viver em paz, onde possam trabalhar sem serem apontados com uma arma, sem serem recrutados por gangues", disse ele.

"Acredito que 80% dos migrantes vão ficar no México, que já se tornou um país de destino", acrescentou.

Até agora, o Instituto Nacional de Migração (INM) mexicano entregou mais de 230 vistos de trânsito e espera a emissão de mais 200 nesta quarta-feira.

Humberto Velázquez, um jovem hondurenho de 25 anos, está à espera de um visto. Ele planeja ir para Monterrey, no norte do México. "Um amigo me prometeu trabalho", disse.

Mas se não conseguir os documentos, arriscaria seguir adiante ilegalmente.

A caravana instalou um acampamento em campos de futebol de Matías Romero, perto da linha férrea, onde passa o trem que para o norte.

À noite, os centro-americanos dormem abraçados aos seus poucos pertences, que usam de travesseiro.

Esperam seguir na quinta-feira para a cidade de Puebla, no centro do México, a mais de 550 km de distância e onde esperam advogados para aconselhá-los sobre se podem ou não requerer asilo no México ou nos Estados Unidos. Depois, vão partir para a capital do país.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Jorge G. Castaneda, a reação de Trump tem sido "um pouco histérica" diante da perspectiva de os republicanos perderem sua maioria na Câmara nas eleições de novembro.

"É uma manobra que apela aos piores sentimentos da sociedade americana", acrescentou, lembrando que pelo menos dois de seus antecessores enviaram a Guarda Nacional para a fronteira com o México. / AFP



 

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