Trump bota para quebrar

O líder na disputa pela nomeação republicana sai com tudo do Meio-Oeste

O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

Para que Donald Trump ponha as mãos – que não são pequenas, diz ele – na Casa Branca, duas coisas precisam acontecer. Primeiro, ele tem de assegurar a nomeação do Partido Republicano; segundo, precisa obter a preferência de uma fatia gigantesca do eleitorado branco, a fim de compensar o desprezo com que é visto por hispânicos e negros. Com os resultados de Mississippi e Michigan, os maiores dos quatro Estados que tiveram prévias na terça-feira, ambos os cenários pareciam prováveis.

Trump obteve vitórias substanciais, apesar de ter tido a pior semana de sua campanha. Ele causou consternação ao falar do tamanho de seu pênis no debate do dia 3 e provocou alarme ao conclamar as pessoas que participavam de um comício em Orlando a fazer um juramento de fidelidade a si próprio, concluído com saudação em estilo fascista. Foi criticado pelo candidato republicano nas eleições presidenciais de 2012, Mitt Romney, que o acusou de ser “um impostor, uma fraude”. No dia 5, levou uma surra de Ted Cruz em Kansas e no Maine, onde pesquisas previam vitória sua. Parecia que a onda Trump chegara ao fim. Michigan e Mississippi mostram que o magnata continua nadando de braçada.

Nesses dois Estados e em Idaho – onde ficou em segundo, atrás de Cruz –, Trump conquistou mais do que os 59 delegados de que precisava para permanecer à frente da disputa e a caminho da nomeação. E acrescentou outros 10 delegados com a vitória que obteve pouco depois no Havaí. Além disso, o bilionário viu serem tirados de sua frente dois possíveis obstáculos, Flórida e Ohio – onde um total de 165 delegados estará em disputa –, agora que se esvaíram as perspectivas dos dois pré-candidatos locais, Marco Rubio e John Kasich. Tendo terminado a terça-feira sem conquistar um único delegado, o senador pela Flórida acumula apenas duas vitórias insignificantes (Porto Rico e Minnesota) num total de 24 prévias disputadas. Trump venceu em 15 Estados; Cruz, em 7; Kasich, que é o governador de Ohio, ainda não obteve vitória – e diz que abandonará a disputa se não ganhar em seu Estado. Com a disputa reduzida a dois candidatos, Cruz deve ser, em tese, favorecido. Mas se Trump ganhar Flórida e Ohio, talvez seja tarde demais para que possa ser derrotado.

As chances de Trump obter uma maioria folgada entre os eleitores brancos nas eleições de novembro aumentaram depois do fiasco ainda maior de que foi palco a pré-campanha democrata. Deixando atordoados os institutos de pesquisas – que haviam previsto uma vitória tranquila para ela no Estado –, Hillary Clinton perdeu Michigan para Bernie Sanders. Tudo indica que a ex-secretária de Estado acabará sendo a candidata do Partido Democrata: sua vantagem sobre o senador de Vermont é de mais de 200 delegados. Mas o caráter do tropeço indica que talvez seja exatamente a rival de que Trump precisa.

As treze vitórias que Hillary obteve até agora, incluindo o Mississippi, basearam-se amplamente no apoio dos democratas negros. Mas sua trajetória tem sido acidentada na maior parte dos Estados não sulistas, onde os ataques a Wall Street e à globalização rendem a Sanders a adoração de eleitores mais jovens e brancos. Não bastasse isso, num Estado cujo setor industrial fechou milhares de postos de trabalho nas últimas décadas, o discurso antiglobalização aparentemente também lhe garantiu muitos votos entre os negros. 

Sanders tentou fazer do tema um divisor de águas entre suas posições e as de Hillary, a quem fustigou sem dó pelo apoio aos acordos comerciais que os EUA vêm fechando com outras nações. A estratégia foi bem-sucedida: ele obteve a maioria dos votos entre eleitores que estão preocupados com a economia e acham que o comércio internacional tira empregos dos americanos.

Isso indica que Sanders tem condições de voltar a vencer nos Estados do Meio-Oeste que realizarão primárias nas próximas semanas, incluindo Illinois, Ohio e Wisconsin, prolongando a disputa democrata por mais tempo. Mais importante, porém, é o fato de que a vulnerabilidade de Hillary nesses Estados, e nesse tema em particular, sugere o caminho que Trump deve percorrer para tentar chegar à presidência. Esses Estados, onde predomina o voto democrata, abrigam os resquícios do apoio que o partido tinha entre trabalhadores brancos e sindicalizados. Trump, que é tão protecionista quanto Sanders, pode muito bem invadir o bastião. Hillary precisa oferecer uma resposta mais adequada ao descontentamento econômico que Sanders e Trump vêm explorando. Com a campanha em estágio avançado, o mais provável é que ela acabe tendo de recorrer ao populismo. É possível que os defensores do livre-comércio tenham alguns meses deprimentes pela frente.

De qualquer forma, não foi esse o ponto do estrambótico discurso de vitória que Trump pronunciou na Flórida. Incomodado com as críticas a seu desempenho como empresário, o magnata aproveitou para falar de alguns dos muitos produtos que ele comercializa: o vinho Trump, a vodca Trump e os cortes de carne bovina Trump. “Cortes de carne Trump, sim senhor. Onde é que estão? Temos algum bife Trump aqui? Pois é, temos”, tagarelava Trump no palanque, parecendo mais um apresentador do canal de compras. O curioso é que, pelo que se sabe, o frigorífico do bilionário foi desativado em 2007. Portanto, se o bife era de fato um Trump, já devia estar fora da validade. Para os EUA, ao que tudo indica, o risco de indigestão é grande. /TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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