Michael Reynolds / EFE
Michael Reynolds / EFE

Trump cancela reunião sobre acordo de paz com Taleban e grupo ameaça EUA

Presidente pretendia reunir representantes do governo do Afeganistão e do grupo terrorista na semana do aniversário do 11/9 nos EUA, mas recuou após um atentado do grupo que matou 12 pessoas, entre elas um soldado americano

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 01h37
Atualizado 09 de setembro de 2019 | 09h50

CABUL - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu as reuniões sobre o acordo de paz com líderes do Taleban e com o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani. Os encontros deveriam ocorrer separadamente neste domingo, 8, em Camp David, uma de suas residências oficiais nos EUA. Horas depois, os taleban ameaçaram os americanos, embora tenham deixado a porta aberta para futuras negociações.

Neste domingo, uma equipe de negociadores do Taleban se reuniu em caráter de urgência em Doha, no Catar, para discutir as consequências da paralisação nas negociações de paz. “Acima de qualquer coisa quem têm mais a perder são os americanos”, disse o Taleban em nota. “Suas posições serão atingidas e sua posição antipacífica ficará clara para o mundo. Sua perda humana e financeira irá aumentar e suas ações políticas se tornarão instáveis.”

Mesmo com Trump responsabilizando um ataque do Taleban no Afeganistão que deixou ao menos 12 mortos, entre eles um soldado americano, pela decisão de cancelar as negociações que já duram um ano, fontes do governo atribuíram o retrocesso à resistência do grupo em aceitar os termos dos americanos para um acordo. 

A insistência para uma apressada cúpula de paz em Camp David para concluir as negociações também foi um complicador. Assim, um acordo que parecia iminente entrou em um impasse. 

Depois de renegar o acordo e mostrar interesse na reta final das negociações com o Taleban, Trump fez uma aposta de alto risco: trazer representantes dos rebeldes e do governo afegão para Camp David. 

Residência oficial dos presidentes americanos, o local já foi palco de acordos de paz entre Egito e Israel em 1978. A reunião pretendida por Trump estava prevista para ontem, 8 de setembro, apenas 3 dias antes do aniversário dos atentados de 11/9, motivo que detonou a Guerra no Afeganistão, em 2001. 

Segundo fontes afegãs, ocidentais e do Taleban, o principal motivo de discordância envolvia a libertação de prisioneiros. 

Líderes do grupo radical afegão também se negaram a se encontrar diretamente com representantes do governo afegão antes que um acordo de paz estivesse selado com os Estados Unidos. Os diplomatas americanos queriam que o encontro com a equipe do presidente Ashraf Ghani ocorresse antes disso. 

Para os taleban, a oferta americana era um suicídio político. “Se Trump achava que seria possível resolver nossas diferenças numa reunião, saiba que isso não é possível, porque não reconhecemos um governo de fantoches”, disse um líder do Taleban, que pediu para não ser identificado. 

O objetivo destas negociações que se arrastam há mais de um ano é colocar um fim à mais longa guerra em que Washington já se envolveu. Por causa desta suspensão, os taleban advertiram que os EUA "vão sofrer mais do que ninguém, toda sua credibilidade se verá minada".

"Ainda (...) acreditamos que o lado americano voltará a esta posição (...). Nossa luta durante os últimos 18 anos tinha de ter mostrado aos americanos que não ficaremos satisfeitos até vermos o fim completo da ocupação", disse o porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, no Twitter.

"Pedimos uma compreensão mútua há 20 anos. Seguimos nesta posição e acreditamos que a parte americana deve voltar à mesma", completou ele.

Mujahid disse que as negociações estavam sendo conduzidas sem incidentes até sábado, e os dois lados tinham concordado em manter negociações intra-afegãs no dia 23 de setembro.

EUA dispostos a reabrir negociações 

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, reagiu, afirmando em vários programas de televisão americanos neste domingo que seu país está disposto a reabrir as negociações, se os taleban mudarem de atitude e respeitarem seus acordos.

"Espero que os taleban mudem seu comportamento e voltem a se comprometer com as coisas de que estamos falando. No final, isso se resolverá com uma série de conversas", afirmou Pompeo ao "This Week", programa da rede ABC.

Ele disse também que Trump "ainda não decidiu" se levará adiante a decisão de retirar os milhares de soldados americanos que estão no Afeganistão, conforme previsto no projeto de acordo em discussão com os taleban.

Ao ser questionado pela ABC sobre as negociações depois do anúncio de Trump, o chefe da diplomacia americana confirmou que o enviado de Washington, Zalmay Khalilzad, "voltará para casa por enquanto".

"Precisamos de um compromisso significativo" dos taleban para retomar as conversas, insistiu Pompeo, em entrevista à rede americana CNN. O secretário de Estado advertiu, porém, que haverá uma maior pressão militar, se os ataques continuarem.

"Se os taleban não se comportarem, se não cumprirem com os compromissos que nos fizeram durante semanas e, em alguns casos, meses, o presidente dos EUA não vai reduzir a pressão", ressaltou Pompeo. "Não vamos reduzir nosso apoio às forças de segurança afegãs, que lutaram tanto", completou.

Suspensão das conversas

No anúncio do cancelamento, feito no sábado, Trump alegou que os taleban mataram um militar americano com um carro-bomba em Cabul na quinta-feira, 5.

Os taleban "admitiram um ataque em Cabul que matou um dos nossos grandes soldados e outras 11 pessoas", disse Trump em sua conta no Twitter, decidindo pelo "cancelamento imediato" de uma "reunião secreta" com líderes dos taleban em Camp David, assim como pela suspensão das negociações para retirar as tropas americanas do Afeganistão.

Trump lamentou que, "para tentar conseguir uma falsa vantagem" nas negociações, os taleban realizaram um atentado na quinta-feira. Foi o segundo ataque dos rebeldes em poucos dias na capital afegã, apesar do "acordo de princípio" que o negociador americano, Zalmay Khalilzad, afirmou ter fechado com os taleban durante negociações em Doha. O texto havia sido apresentado ao presidente Ghani no começo da semana.

"Que tipo de pessoas matam tanta gente para conseguir uma aparente vantagem nas negociações? Fracassaram. Só conseguiram piorar as coisas", disse Trump no Twitter. "Se são incapazes de aceitar um cessar-fogo durante estas negociações de paz tão importantes, e estão, inclusive, dispostos a matar 12 inocentes, é porque, provavelmente, não têm capacidade de negociar um acordo significativo. Por quantas décadas querem continuar combatendo?", insistiu.

Washington estava prestes a fechar um acordo para permitir o início da retirada progressiva dos cerca de 13 mil soldados americanos mobilizados no Afeganistão em troca de garantias, por parte dos taleban, de uma redução da violência e do início de negociações de paz diretas com o governo de Cabul. Esta condição era rejeitada pelos rebeldes até o momento. / AFP e Reuters

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