Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Trump capturou secretamente registros telefônicos de jornalistas do 'New York Times'

Departamento de Justiça admitiu prática após divulgação de casos semelhantes contra repórteres do 'Washington Post' e da CNN

Charlie Savage e Katie Benner / The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 22h58

WASHINGTON - O Departamento de Justiça do governo de Donald Trump confiscou secretamente os registros telefônicos de quatro repórteres do jornal The New York Times durante quase quatro meses em 2017, como parte de uma investigação de vazamento de informações, revelou o governo Biden nesta quarta-feira, 2.

Esta foi a última de uma série de revelações sobre grampos contra jornalistas por parte da Casa Branca. No mês passado, o Departamento de Justiça de Biden divulgou que o governo Trump capturou registros telefônicos de repórteres do Washington Post e ligações e e-mails de um repórter da CNN.

Dean Baquet, editor-executivo do Times, condenou a ação do governo Trump. “A apreensão de registros telefônicos de jornalistas mina profundamente a liberdade de imprensa”, disse ele em um comunicado. “Ameaça silenciar as fontes das quais dependemos para fornecer ao público informações essenciais sobre o que o governo está fazendo.”

No mês passado, após as revelações sobre as apreensões envolvendo repórteres do Post e da CNN, o presidente Biden disse que não permitiria que o departamento tomasse tal medida durante sua administração, chamando-a de simplesmente errada.

Referindo-se a essa declaração, Baquet acrescentou: “O presidente Biden disse que esse tipo de interferência na imprensa livre não será tolerada em seu governo. Esperamos que o Departamento de Justiça explique por que essa ação foi executada e que medidas estão sendo tomadas para garantir que isso não aconteça novamente".

Anthony Coley, um porta-voz do Departamento de Justiça, disse que os policiais obtiveram os registros em 2020 e acrescentou que membros da mídia foram notificados em todas as instâncias sobre as investigações de vazamento.

O departamento informou ao Times que policiais apreenderam registros telefônicos de 14 de janeiro a 30 de abril de 2017, de quatro repórteres do jornal: Matt Apuzzo, Adam Goldman, Eric Lichtblau e Michael S. Schmidt. O governo também garantiu uma ordem judicial para apreender os registros - mas não o conteúdo - de seus e-mails, disse, mas nenhum registro foi obtido.

O Departamento de Justiça não informou o que estava sendo investigado. Mas a lista de repórteres e o momento sugerem que a investigação tenha sido feita após a publicação de um artigo, assinado pelos quatro, sobre como James Comey, então diretor do FBI, lidou com investigações politicamente carregadas durante a eleição presidencial de 2016.

O texto, que discutia a decisão pouco ortodoxa de Comey de anunciar que o FBI  recomendava que não se fizesse uma acusação contra Hillary Clinton no caso do uso de servidor de e-mail privado para conduzir negócios do governo, mencionou um documento obtido na Rússia por hackers que trabalham para funcionários da inteligência holandesa. O documento, cuja existência foi sigilosa, teria desempenhado um papel fundamental na decisão de Comey sobre o caso Clinton.

O documento foi descrito como um memorando ou e-mail escrito por um operativo democrata que expressou confiança de que a secretária de Justiça da época, Loretta Lynch, impediria a investigação de Clinton de ir longe demais. Hackers russos obtiveram o documento, mas aparentemente não está entre aqueles que a Rússia enviou ao WikiLeaks, concluíram oficiais de inteligência.

O Times relatou em janeiro de 2020 que os investigadores da era Trump haviam investigado o vazamento para saber se Comey havia sido a fonte da divulgação não autorizada naquele artigo de 2017.

Comey estava sob críticas desde 2017, depois que Trump o demitiu do cargo de diretor do FBI. Após sua demissão, Comey planejou - por meio de seu amigo Daniel Richman, um professor de direito da Universidade de Columbia - a divulgação ao Times de relatos de várias de suas conversas com o presidente relacionadas à investigação na Rússia.

A investigação sobre Comey, de acordo com três pessoas próximas ao assunto, acabou recebendo o codinome de Arctic Haze. Seu foco evoluiu com o tempo, com investigadores deixando de discutir se seria possível acusar Comey de um crime por revelar suas conversas para se ele tinha algo a ver com a divulgação da existência do documento.

Como parte desse esforço, o FBI também disse ter intimado o Google em 2020, buscando informações relevantes para quaisquer e-mails entre Richman e o Times.

Mas, em novembro de 2020, alguns promotores consideraram que o FBI não encontrou evidências que pudessem apoiar quaisquer acusações contra Comey e discutiram se a investigação deveria ser encerrada.

No início deste ano, os promotores foram informados de que o FBI não estava disposto a encerrar o caso - em parte porque os agentes ainda queriam entrevistar Comey, de acordo com uma pessoa familiarizada com o caso. Entrevistar o sujeito de uma investigação é normalmente considerado uma etapa final antes de encerrar um caso ou apresentar uma acusação.

No mês passado, o FBI perguntou ao advogado de Comey se ele estaria disposto a dar um depoimento, um pedido que Comey recusou, de acordo com uma pessoa familiarizada com o caso.

Começando no meio do governo George W. Bush e estendendo-se pelos governos de Barack Obama e Donald Trump, o Departamento de Justiça tornou-se mais agressivo na busca por investigações criminais de vazamento.

Lichtblau - que não está mais no Times - foi investigado no início desse período porque co-escreveu um artigo do Times de 2005 revelando o programa de vigilância sem mandado que Bush havia secretamente autorizado após os ataques de 11 de setembro de 2001. O governo Bush convocou uma força-tarefa especial para buscar as fontes desse artigo, e sua nova abordagem se espalhou para casos não relacionados durante o governo Obama.

Em 2013, Apuzzo e Goldman - que então trabalhavam para a Associated Press e deram notícias sobre uma conspiração de bomba por um afiliado da Al-Qaeda no Iêmen - foram notificados de que o departamento da era Obama havia capturado secretamente dois meses de seus registros telefônicos, junto com os de outros repórteres e editores da AP.

No mesmo mês, também descobriu-se que, em uma investigação de vazamento sobre um artigo da Fox News envolvendo o programa nuclear da Coreia do Norte, o Departamento de Justiça de Obama usou um mandado de busca para obter os e-mails de um repórter da emissora, caracterizando-o como um conspirador criminoso.

As revelações geraram um alvoroço bipartidário, e Obama instruiu o secretário de Justiça da época, Eric H. Holder Jr., a revisar as regras para investigações criminais que afetam veículos de comunicação.

Holder as endureceu, fortalecendo a preferência por notificar uma agência de notícias com antecedência sobre uma intimação planejada para que ela pudesse negociar ou lutar no tribunal pelos seus direitos. Após as mudanças, a taxa de novos casos de vazamento caiu significativamente durante o segundo mandato de Obama.

Mas sob o comando de Trump, que gostava de atacar a mídia noticiosa como o “inimigo do povo”, a prática ressurgiu.

Em agosto de 2017, o secretário de Justiça da época, Jeff Sessions, disse que o número de investigações sobre vazamentos triplicou. E sob seu sucessor, William P. Barr, agora está claro que o departamento intensificou ainda mais sua abordagem agressiva. 

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