Kevin Lamarque / Reuters
Kevin Lamarque / Reuters

Trump cita Brasil como mau exemplo no combate ao coronavírus

Presidente americano também fala sobre modelo sueco: 'Se tivéssemos feito isso, teríamos perdido 1 milhão, 1 milhão e meio, talvez até 2 milhões ou mais de vidas'

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 14h41
Atualizado 05 de junho de 2020 | 22h19

WASHINGTON  - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citou nesta sexta-feira, 5, o Brasil como exemplo de país com dificuldades para lidar com a pandemia de coronavírus, ao defender a estratégia adotada por seu governo contra a doença e dizer que agora seu país deve mudar o foco para se concentrar em proteger grupos de risco e permitir uma maior reabertura da economia. 

Trump também citou a Suécia, país que não impôs quarentenas e decidiu se basear principalmente em medidas voluntárias de distanciamento social e higiene pessoal, mantendo a maioria das escolas, restaurantes e empresas abertas. Como resultado, a Suécia tem um número muito maior de casos de covid-19 do que seus vizinhos nórdicos.

"Se você olha para o Brasil, eles estão num momento bem difícil. E, falando nisso, continuam falando da Suécia. Voltou a assombrar a Suécia. A Suécia também está passando por dificuldades terríveis. Se tivéssemos agido assim, teríamos perdido 1 milhão, 1,5 milhão, talvez 2,5 milhões ou até mais", afirmou Trump na Casa Branca, acrescentando que agora é hora de acelerar a reabertura.

O Brasil é o segundo do mundo em número de casos, com quase 615 mil infecções confirmadas pelo Ministério da Saúde e 34.021 mortes, mas tem neste momento a maior taxa de aceleração da doença no mundo, uma vez que quase diariamente registra mais casos e mortes do que os EUA.

Apesar disso, diversos governos municipais e estaduais têm anunciado planos para afrouxar as medidas de distanciamento social no Brasil diante da pressão econômica provocada pela paralisação das atividades, o que levou especialistas alertarem para o risco de um agravamento da situação.

Uma restrição de viagens do Brasil aos EUA está em vigor desde o dia 26 de maio. Trump já havia proibido viagens de Europa e China. O Brasil, porém, é o único país da America do Sul a sofrer esse tipo de restrição.

Trump é tido pelo governo Bolsonaro como principal aliado no cenário político internacional. Ao ser questionado sobre a situação do Brasil, ele evita críticas à gestão de Bolsonaro, que internacionalmente tem sido apontado por analistas e imprensa estrangeira como um dos piores líderes na condução da resposta à crise.

A proibição de viajar foi um baque para o presidente Bolsonaro, que tem seguido o exemplo do presidente dos EUA ao abordar a pandemia, combatendo pedidos por distanciamento social e promovendo medicamentos não comprovados.

É um 'grande dia' para Floyd, diz Trump, em nova polêmica

A entrevista coletiva de hoje foi convocada para Trump poder se vangloriar dos 2,5 milhões de empregos criados em maio – o desempenho econômico é considerado crucial para sua reeleição em novembro. Mas o presidente abandonou o teleprompter e disparou insultos de improviso. A declaração mais questionada foi quando ele se referiu a George Floyd, negro morto por policiais brancos em Minneapolis, na semana passada – o que deu origem à onda de protestos que completou ontem 11 dias. 

“Espero que George esteja olhando para baixo agora e dizendo que isto que está acontecendo é algo grandioso para nosso país. É um grande dia para ele. É um grande dia para todos”, disse o presidente, aparentemente se referindo ao aumento no número de empregos.

Em seguida, a repórter Yamiche Alcindor, da PBS, que é negra, questionou se o presidente não faria algum pronunciamento para tratar do racismo nos EUA. Trump levantou a cabeça e colocou o dedo indicador no nariz, fazendo o gesto de silêncio. Depois, disse que o melhor remédio contra o racismo é a recuperação econômica. 

As últimas semanas foram desastrosas para o presidente. Apesar de criticar a situação do Brasil, os EUA ainda são o país mais afetado do mundo pela covid-19, com quase 2 milhões de casos e 110 mil mortos. As medidas de isolamento afetaram a economia e o número de desempregados passou de 40 milhões em abril. 

Além das crises econômica e de saúde pública, a morte de Floyd causou uma tensão social, com protestos contra a violência policial e o racismo. Em vez de colocar panos quentes, Trump optou por uma resposta dura e ameaçou enviar tropas para reprimir as manifestações nos Estados. Em Washington, ele militarizou a repressão e foi criticado por importantes ex-generais e militares do alto comando das Forças Armadas.

Por isso, os números de hoje, que indicaram uma recuperação do emprego em maio, contribuíram para o tom otimista do discurso do presidente. “Tínhamos a maior economia da história do mundo. E essa força nos permitiu vencer esta horrível pandemia, que já foi praticamente superada. Estamos indo muito bem”, disse. “Tomamos todas as decisões corretas.”

Trump falou por cerca de uma hora. Assim que terminou, começaram as críticas – principalmente à referência feita a Floyd. O democrata Joe Biden, seu adversário em novembro, classificou o discurso de “desprezível”. Brandon Gassaway, porta-voz do Partido Democrata, disse que a mensagem do presidente “era um tapa na cara”. 

Alguns republicanos também criticaram Trump, entre eles Michael Steele, que é negro e foi presidente do Comitê Nacional Republicano. “O discurso não apenas soa mal, mas beira a blasfêmia diante do que aconteceu com Floyd”, disse Steele. / WP, NYT e REUTERS

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