AFP PHOTO / Mandel NGAN
AFP PHOTO / Mandel NGAN

Na Otan, Trump repreende aliados e cobra mais dinheiro para aliança

Presidente americano diz que posicionamento dos membros da organização 'não é justa com contribuintes dos EUA' e frustra europeus ao não deixar explícito compromisso dos país com a mútua defesa coletiva em caso de ataque

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2017 | 12h36
Atualizado 26 Maio 2017 | 09h33

WASHINGTON - Resgatando sua retórica de campanha, Donald Trump usou seu primeiro encontro com líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para cobrá-los, em tom não diplomático, por não destinarem 2% de seu PIB para a área de defesa. O presidente dos EUA também frustrou os europeus ao não expressar de maneira clara seu compromisso com o princípio de defesa coletiva dos integrantes do pacto.

"Os membros da Otan têm de finalmente contribuir com sua parte e cumprir suas obrigações financeiras, porque 23 das 28 nações membros ainda não estão pagando o que deveriam estar pagando", declarou Trump diante dos líderes europeus na sede da instituição, em Bruxelas. "Isso não é justo com o povo e os contribuintes dos Estados Unidos."

O presidente americano parecia menos à vontade em meio aos tradicionais aliados do seu país do que no encontro que teve com representantes de nações de maioria muçulmana na Arábia Saudita, no domingo. Depois do discurso, Trump permaneceu em silencio e isolado enquanto os dirigentes europeus conversavam à espera da foto oficial. Em um momento constrangedor captado pelas câmeras de TV, o americano empurrou o primeiro-ministro de Montenegro, Milo Dukanovic, para ficar à frente do grupo (veja abaixo).

O discurso de Trump foi realizado na cerimônia de inauguração de um memorial na nova sede da organização, com símbolos de momentos históricos dos dois lados do Atlântico: um pedaço do Muro de Berlim e uma peça de metal retorcido da torre norte do World Trade Center, destruída no 11 de setembro de 2001.

"Eu nunca perguntei nem uma vez quanto a nova sede da Otan custou. Eu me recuso a fazer isso", declarou Trump durante o evento, no qual disse que o terrorismo, a imigração e as ameaças da Rússia deveriam ser a prioridade da organização. "Na maior parte das vezes, nós não temos ideia de quem eles são", afirmou Trump, reiterando sua defesa do endurecimento dos países em relação à imigrantes e refugiados. A postura contrastou com a adotada por Angela Merkel, que discursou antes do americano: "Não é o isolamento e a construção de muros que nos tornam bem sucedidos, mas sociedades abertas", disse a primeira-ministra alemã.

"Aos olhos da maioria dos dirigentes europeus, Donald Trump não se impôs como o líder da aliança transatlântica", avaliou Hal Brands, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. Em sua opinião, Trump se focou na agenda negativa de cobranças financeiras e não apresentou uma visão para a cooperação entre os membros da Otan. 

A ausência de menção explícita ao artigo 5º, segundo o qual o ataque a um membro da organização é um ataque a todos eles, reforçou as dúvidas dos europeus sobre o compromisso dos EUA com o princípio de defesa coletiva, afirmou Brands. O atentado de 11 de setembro de 2001 foi o único episódio em que o dispositivo foi invocado.

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