Reprodução CIA/via AP
Reprodução CIA/via AP

Trump confirma morte de filho de Osama Bin Laden, herdeiro da Al-Qaeda

Hamza Bin Laden foi morto em uma operação de contraterrorismo na região do Afeganistão e Paquistão, segundo comunicado; imprensa americana já havia publicado a informação em julho

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 11h34

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou neste sábado, 14, a morte de Hamza Bin Laden, o filho do terrorista Osama Bin Laden, considerado seu herdeiro à frente da rede Al-Qaeda.

Seu óbito havia sido anunciado pela imprensa americana no final de julho, citando fontes confiáveis do governo.

“Hamza Bin Laden, o alto responsável da Al-Qaeda e filho de Osama Bin Laden, foi abatido em uma operação de contraterrorismo realizada pelos Estados Unidos na região do Afeganistão e Paquistão”, disse Trump em um comunicado.

“A perda de Hamza Bin Laden não somente priva a Al-Qaeda de sua autoridade e conexão simbólica com seu pai, assim como também debilita importantes atividades operativas do grupo”, acrescentou. “Hamza Bin Laden planejou e trabalhou com diversos grupos terroristas”.

Considerado como o sucessor designado por Osama Bin Laden, o fundador da rede terrorista responsável pelos atentados do 11 de setembro, que completaram 18 anos nesta semana, Hamza estava na lista negra americada de pessoas acusadas de “terrorismo”.

Hamza esteve ao lado do pai no Afeganistão, em 2001, antes dos atentados. Ele também chegou a fugir com Osama para o Paquistão, após a invasão dos EUA no Afeganistão ter levado grande parte dos líderes da Al-Qaeda para o país vizinho, de acordo com a Brookings Institution.

Talhado para substituir Osama Bin Laden

Nos anos anteriores à sua morte, em 2011, Osama Bin Laden passou seus últimos dias escondido atrás dos muros de seu complexo de Abbottabad, no Paquistão, preocupado com um de seus filhos, Hamza Bin Laden, que ele preparava para ser seu substituto na liderança da Al-Qaeda.

Ele escreveu carta após carta descrevendo o currículo que Hamza Bin Laden, então com 23 anos, deveria estudar, as qualidades que deveria cultivar e as medidas de segurança que deveria adotar. Em uma carta, ele aconselhou o filho, que tinha apenas 13 anos quando viu o pai pela última vez, a não sair de casa.

Em outra, ele pediu para Hamza se juntar a ele no Paquistão, aconselhando-o a viajar em um dia nublado, quando seria mais difícil para um drone segui-lo. Osama elaborou um protocolo de segurança complexo, pedindo que o filho trocasse de carro dentro de um túnel para enganar a vigilância aérea.

O cuidado que ele demonstrou não era apenas o de um pai com um filho. Era uma tentativa do terrorista mais caçado do mundo de garantir seu legado. Analistas acreditam que desde pelo menos 2010 a Al-Qaeda estava secretamente preparando Hamza Bin Laden para assumir a organização – ação que agora ficou impossível. 

A morte de Hamza Bin Laden representa um duro golpe para a Al-Qaeda, cujas fileiras foram reduzidas por ataques americanos e pela ascensão do Estado Islâmico (EI). A rede terrorista tem se esforçado para recrutar uma geração mais jovem, atraídos ao EI por vídeos violentos e uso de tecnologia, enquanto a Al-Qaeda ainda usa vídeos de mais de uma hora com líderes envelhecidos discursando.

O filho mais jovem de Bin Laden deveria resolver vários dos problemas mais prementes da Al-Qaeda: com menos de 30 anos, ele era quase quatro décadas mais novo que Ayman al-Zawahiri, atual líder do grupo.

Por ele ter o nome mais famoso do terrorismo, era capaz de atrair a devoção que os jihadistas de todo o mundo sentem por seu pai. Por essas razões, a Al-Qaeda esperava que Hamza Bin Laden fosse um unificador, apelando não apenas à base do grupo, mas também aos recrutas que perdeu para o Estado Islâmico, muitos em uma encruzilhada após a perda de território do EI no Iraque e na Síria.

“A Al-Qaeda perdeu seu futuro porque Hamza era o futuro da Al-Qaeda”, disse Ali Soufan, um ex-agente do F.B.I. que tem um centro de estudos sobre terrorismo, ao New York Times. “Ele estava sendo preparado para liderar a organização, e é muito óbvio pelas declarações dele que seu foco era trazer de volta a mensagem do pai.”

Quando Hamza tinha 2 anos, seu pai se mudou do Afeganistão para o Sudão. Ele ficou lá até os 7 anos de idade, quando o governo sudanês cedeu à pressão internacional e o expulsou. Ele e seus seguidores voltaram ao Afeganistão, onde buscaram refúgio com o Taleban e moravam em um complexo de cabanas de concreto, sem encanamento, eletricidade e portas.

Hamza Bin Laden tinha apenas 13 anos quando Osama Bin Laden levou ele e seus irmãos até o pé de uma montanha no Afeganistão e se despediu pela última vez. Era 2001, e aviões pilotados por terroristas da Al-Qaeda haviam acabado de atingir o World Trade Center e o Pentágono.

O líder terrorista sabia que a retaliação não estava distante, e tomou providências para mandar seus meninos embora. Ele entregou a cada um deles um conjunto de contas de oração muçulmanas, lembrando-os de buscar força em sua fé. 

“Você se despediu e partimos, e foi como se tivéssemos retirado nossos fígados e os deixado lá”, escreveu Hamza Bin Laden em uma carta dirigida a seu “amado pai” anos depois.

Hamza era o favorito dos 23 filhos de Osama. Ele era o único filho de Khairia Sabar, uma mulher saudita que se tornou a esposa favorita de Osama Bin Laden. Os dois se casaram quando ela tinha mais de 30 anos, e ela teve dificuldades para engravidar, e sofreu abortos repetidos antes de dar à luz Hamza em 1989. Acredita-se que Hamza nasceu em Jidda, na Arábia Saudita.

Sua mãe tornou-se parceira no projeto de jihad global do marido, ajudando-o a redigir o discurso que planejava fazer no 10º aniversário dos ataques de 11 de setembro.

“A mãe de Hamza era a esposa favorita de Bin Laden. Ela era muito inteligente e muito bem-educada, e reivindicou descendência do profeta Maomé”, disse ao New York Times Lawrence Wright, que acompanhou a história da família em seu livro O Vulto das Torres.

Essa linhagem se tornou ainda mais importante depois de 2014, quando o EI declarou seu califado e nomeou um califa. Somente homens que são descendentes da família do Profeta Maomé são elegíveis para serem chamados de califa. Hamza, disse Wright, “era o único filho de Bin Laden que poderia fazer essa afirmação, e isso era um trunfo que não existe mais”. /THE NEW YORK TIMES, AFP e Reuters


 

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