Photo by Mandel NGAN and Jim WATSON / AFP
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Trump critica jornalista por 'demora' em revelar o que disse sobre pandemia

Presidente afirma que se declarações sobre perigo do coronavírus foram feitas há meses e, se fossem danosas ao povo americano, Bob Woodward poderia ter divulgado o conteúdo antes

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 15h13

WASHINGTON - O presidente Donald Trump voltou a atacar o jornalista do Washington Post Bob Woodward nesta quinta-feira, 10, afirmando que se as revelações feitas por ele na quarta-feira - de que Trump reconheceu o perigo do coronavírus, mas optou por esconder para não causar pânico - fossem realmente danosas ao povo americano teriam sido tornadas públicas antes.

A ofensiva de Trump vem numa sequência de críticas intensas ao jornalista desde que o Post e outros veículos da imprensa americana divulgaram trechos de entrevistas do presidente ao Woodward, que fazem parte do livro Rage, que será lançado neste mês. Trump deu a Woodward 18 entrevistas entre dezembro de 2019 e julho de 2020, por telefone ou pessoalmente.

Woodward se tornou um jornalista reconhecido por ter revelado o escândalo Watergate nos anos 1970, junto com Carl Bernstein.

Na contagem regressiva para as eleições de novembro, nas quais Trump enfrentará o democrata Joe Biden, a pandemia da covid-19 se tornou um tema central da campanha para desconforto do republicano. 

"Bob Woodward teve minhas declarações por vários meses", disse ele em um tweet. "Se você pensava que elas eram tão ruins ou perigosas, por que não relatou imediatamente em um esforço para salvar vidas? Você não tinha a obrigação de fazer isso? NÃO, porque você sabia que eram respostas boas e adequadas", escreveu Trump.

Evitar o pânico

"Sempre quis minimizar (o perigo)", disse Trump em uma conversa com Woodward em 19 de março, revelada na quarta-feira pelo jornalista. No entanto, várias semanas antes, em 7 de fevereiro, o presidente explicou a Woodward como o novo coronavírus era "uma coisa mortal".

Trump respondeu a perguntas sobre o caso em entrevista coletiva na Casa Branca na quarta-feira. “O fato é que sou uma líder de torcida por este país. Amo nosso país e não quero que as pessoas tenham medo. Não quero criar pânico, como vocês dizem", disse Trump aos jornalistas. “Certamente, não vou levar este país ou o mundo à loucura. Queremos mostrar confiança. Queremos mostrar força”.

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A secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, disse que as palavras do presidente ao público foram projetadas para expressar confiança e calma em um momento de grandes desafios. "O presidente nunca mentiu para o público americano em relação à covid. O presidente estava expressando calma e suas ações refletem isso", disse McEnany.

Na noite de quarta, o presidente voltou a se defender durante o programa de Sean Hannity, na Fox News, dizendo que sua administração "fez um excelente trabalho". "É impressionante o que temos feito". 

A gestão da epidemia, que matou mais de 190 mil pessoas nos Estados Unidos, rendeu fortes críticas ao presidente Trump, tanto de seus adversários quanto de cientistas e até de alguns membros de seu próprio partido. Ele é acusado de ter enviado sinais conflitantes e confusos, mas também de não ter mostrado empatia diante do número de mortes causadas pela covid-19.

"Não quero que as pessoas tenham medo, não quero criar pânico", foi o argumento usado por Trump ainda na quarta-feira para se defender e explicar sua reação à emergência, afirmando que contrastava com uma possível "anarquia" se Biden vencer as eleições em 3 de novembro.

Ataques a Biden

Consultado nesta quinta-feira pela Fox News, o presidente voltou a enfatizar um cenário de catástrofe em caso de vitória do democrata. "Posso dizer uma coisa com certeza: se Biden vencer as eleições, a China acabará assumindo o controle dos EUA", disse ele.

Trump também afirmou que poderá haver um "crash do mercado de ações como nunca antes", se seu oponente democrata, que lidera as pesquisas, chegar à Casa Branca.

A campanha de reeleição de Trump tentou redirecionar o foco do noticiário para Biden, disparando um e-mail na manhã desta quinta acusando-o de "reescrever a história" e estar "atrasado no coronavírus". "Enquanto o presidente Trump já estava tomando medidas decisivas para proteger o país nos primeiros meses, Biden quase não dizia nada sobre a pandemia e continuava com sua campanha normalmente", escreveu a campanha de Trump.

A campanha de Biden intensificou seu próprio ataque nesta quinta, argumentando que a desculpa de Trump de tentar evitar o "pânico" relacionado ao coronavírus não explicava sua decisão de realizar uma série de mega-comícios no período entre sua primeira conversa com Woodward e março.

Amizade contestada

O livro de Woodward também aborda o desempenho de Trump na política internacional e revela cartas entre ele e o norte-coreano Kim Jong-un. Há 25 cartas entre os dois líderes nas quais Kim usa palavras exageradas para bajular Trump, como se referir ao seu homólogo como "sua excelência".

Em um relacionamento que começou com insultos e ameaças de guerra, Trump também elogia o líder norte-coreano, chamando sua troca com Kim de uma "amizade especial". 

"Só você e eu, trabalhando juntos, podemos resolver os problemas entre nossos dois países e acabar com quase 70 anos de hostilidade", escreveu Trump em uma carta antes de um encontro entre os dois líderes em meados de 2019 na zona desmilitarizada que divide a península da Coreia. "Vai ser histórico!" / AFP 

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