REUTERS/Kevin Lamarque
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Trump critica plano de May para Brexit e chega a Londres sob protestos

Presidente diz que proposta de saída da UE apresentada pela premiê pode ‘matar’ possível acordo de livre-comércio com os EUA; americano canta ‘vitória’ em reunião de cúpula da Otan e garante que países-membros aumentarão gastos militares

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2018 | 19h54

O presidente americano, Donald Trump, chegou nesta quinta-feira, 12, a Londres em meio a protestos para uma visita de quatro dias, após questionar o plano para o Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia. Horas antes, a primeira-ministra britânica, Theresa May, havia apresentado seu projeto para as futuras relações com a UE, com a qual prevê manter estreitos laços comerciais.

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“Não sei se (os britânicos) votaram nisso”, disse Trump em Bruxelas, onde participou de uma cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “As pessoas votaram pela separação, então imagino que é isso que farão, mas talvez tomem um caminho diferente.”

Em entrevista ao jornal The Sun, que será publicada nesta sexta-feira, Trump afirmou que o plano de May “provavelmente pode matar” a possibilidade de um acordo de livre-comércio com os EUA. “Se aprovarem um acordo como esse, estaríamos tratando com a União Europeia no lugar de com o Reino Unido, e isso provavelmente pode matar o acordo”, disse.

O plano levou à demissão de conhecidos eurocéticos do governo, como o ex-ministro de Relações Exteriores Boris Johnson e o encarregado de negociar o Brexit, David Davis.

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Uma porta-voz do governo britânico disse que a primeira-ministra explicará pessoalmente as negociações sobre o Brexit ao presidente americano e assegurou que o plano representa o que pediram os eleitores. “Recuperaremos o controle de nosso dinheiro, de nossas leis e fronteiras e poderemos estabelecer relações comerciais livremente ao redor do mundo”, destacou.

O governo britânico está ansioso em demonstrar que há oportunidades fora da UE e a famosa “relação especial” com os EUA poderá se traduzir em ambiciosos acordos comerciais. “Quando deixarmos a União Europeia (em março de 2019), começaremos a traçar um novo rumo para o Reino Unido no mundo e nossas alianças mundiais serão mais fortes do que nunca”, disse May. “Não há aliança mais forte do que nossa relação especial com os EUA e não haverá aliança mais importante nos próximos anos.”

Em meio a programados protestos contra Trump, o líder americano e May se reunirão nesta sexta-feira, 13, na residência campestre de Chequers em um encontro no qual a premiê espera abordar futuros acordos comerciais com os EUA. Ele também se reunirá nesta sexta-fera, 13, com a rainha Elizabeth, no Castelo de Windsor, e no domingo segue para Helsinque, onde se reunirá com o presidente russo, Vladimir Putin, na segunda-feira. 

Na quinta-feira, 12, Trump e sua mulher, Melania, participaram de um jantar com empresários no Palácio de Blenheim, uma casa de campo perto de Oxford na qual, em 1874, nasceu Winston Churchill, primeiro-ministro durante a 2.ª Guerra. 

Depois de dois dias de críticas ásperas aos aliados europeus, principalmente àa chanceler alemã, Angela Merkel, Trump, cantou “vitória” na quinta-feira, 12, no último dia da cúpula da Otan. Sem fornecer detalhes, afirmou ter convencido seus aliados a investir mais em despesas militares, a fim de alcançar o patamar de 2% do PIB de cada membro antes da data prevista, 2024. Mas a versão de que haveria um aumento dos investimentos bélicos foi desmentida por líderes de França e Itália.

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A participação de Trump na cúpula foi estridente, como se esperava. Um mês e meio após a cúpula do G-7 realizada no Canadá, quando entrou em atrito direto com os parceiros históricos dos EUA, o americano voltou a empregar palavras duras para tentar obter os avanços que desejava. Sobre a Europa, afirmou que sua defesa contra a Rússia depende totalmente de Washington, e sobre a Alemanha, disse que é “refém” de Moscou em razão de sua alta dependência de energia importada.

Em meio às hostilidades, afirmou que os EUA gastam 4% do PIB em Defesa – na verdade são 3,57% do PIB –, e a Europa também deveria se engajar à mesma altura. A “proposta” foi acolhida com frieza pelos líderes europeus, que nem cogitaram a iniciativa. Ainda assim, menos de 24 horas depois, foi em tom de triunfalismo que Trump concedeu entrevista. 

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“Eu disse que ficaria muito insatisfeito se eles não aumentassem seus engajamentos de forma substancial, pois os EUA pagam um montante enorme”, explicou, dando a entender que teria arrancado um compromisso além do já negociado em cúpulas anteriores da Otan. 

“Conseguimos US$ 33 bilhões a mais”, disse, referindo-se ao valor extra investido pelos europeus em 2017 em relação ao ano anterior. Mas Trump não explicou de que países o valor procede, nem se faz parte de um novo compromisso. Em 2014, os 29 membros da Otan aceitaram o prazo de até 2024 para chegar ao patamar de 2% do PIB em investimentos militares. 

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