Saul Martinez/The New York Times
Saul Martinez/The New York Times

Trump decide morar em resort de luxo, para desespero de vizinhos

Ex-presidente costuma dar trabalho aos endinheirados de Mar-a-Lago, clube particular que ele construiu, mas se comprometeu em não morar

Manuel Roig-Franzia, The Washington Post

15 de fevereiro de 2021 | 05h00
Atualizado 15 de fevereiro de 2021 | 05h00

PALM BEACH, ESTADOS UNIDOS - Em uma noite no fim de janeiro de 1994, fogos de artifício iluminaram os céus acima de Mar-a-Lago, uma grande propriedade imobiliária em Palm Beach, Flórida, com teto dourado, um portão de entrada revestido com azulejos espanhóis de época e uma sala de jantar inspirada no cômodo do Palácio Chigi, em Roma, que o ditador italiano Benito Mussolini viria a usar como escritório.

O espalhafatoso espetáculo em meio à ambientação opulenta se adequava às sensibilidades exibicionistas de Donald Trump, então com 47 anos, magnata dos imóveis de trajetória oscilante que sangrava dinheiro para manter o lugar e, recentemente, tinha estabelecido um acordo com a prefeitura de Palm Beach para converter a propriedade histórica, sua residência, em um clube particular.

Mas havia um probleminha.

“Prezado Sr. Trump", começava uma carta repreendendo levemente o destinatário e assinada por um funcionário da fiscalização municipal, lembrando o proprietário de Mar-a-Lago que, no futuro, “exige-se" a obtenção de aprovação do município antes de novos espetáculos com fogos de artifício.

Naquele mesmo ano, outra carta do tipo “Prezado Sr. Trump" foi enviada, desta vez pedindo a ele que desmarcasse um ensaio fotográfico com a estrela da música pop Madonna na propriedade, que se preparava para a inauguração como clube. Trump foi lembrado de que frivolidades como “ensaios fotográficos para revistas e afins" eram contra as regras da endinheirada comunidade.

E assim tem sido ano após ano, seja em questões menores ou maiores, ao longo de mais de 25 anos, com Trump sempre testando os limites da paciência e da tolerância em uma comunidade onde ele ainda pode ser visto como um intruso vulgar. Centenas de documentos obtidos via solicitação pública mostram detalhadamente como Trump ignorou com frequência as regras e promessas mais elementares, passando por cima dos moradores locais sem receber nenhuma punição. O material mostra também Trump e seus associados demonstrando todas as suas qualidades - intimidando pessoas, insultando-as e apresentando o futuro presidente como vítima.

O relacionamento de amor e ódio entre Trump e Palm Beach -- uma história pontuada por ações na justiça, disputas envolvendo desde a trajetória de voos até uma bandeira americana de dimensões abissais, e ocasionais períodos de trégua -- será testado novamente essa semana enquanto as relutantes autoridades municipais são pressionadas a decidir se ele pode chamar Mar-a-Lago de lar na sua pós-presidência. Preservacionistas horrorizados e antagonistas de Trump dizem que a garantia apresentada por ele anos atrás em uma reunião na câmara de vereadores, quando afirmou que não moraria em Mar-a-Lago, e o acordo assinado por ele convertendo a propriedade em um clube particular o impediriam de morar na cidade, coisa que ele tem feito desde a sua saída da Casa Branca no dia 20 de janeiro.

“Ele não conhece limites. Não respeita o contrato social", disse em entrevista a ativista comunitária. “Não respeita absolutamente nada."

Pressionado por Trump, o promotor da cidade declarou preventivamente que a promessa do ex-presidente de não morar no clube é irrelevante. O promotor - John "Skip" Randolph - entregou aos vereadores o tipo de ferramenta poderosa que seria necessária para fazer as vontades de Trump, opinando que nada poderia impedi-lo de viver no clube enquanto ele se dedicar a ser um funcionário “legítimo" de Mar-a-Lago. Randolph afirma que as leis de zoneamento da cidade permitem que funcionários vivam nos clubes. A análise dele foi suficiente para a presidente da câmara, Margaret Zeidman, que disse ao público acompanhando a reunião via Zoom na terça-feira não acreditar que Trump tenha cometido alguma violação.

Resort de luxo na Flórida foi uma grande aposta de Trump

“Sem dúvida, não há nada igual a Mar-a-Lago", declararam Trump e sua equipe de construção, ao estilo de apresentadores que promovem espetáculos de tirar o fôlego, em seu pedido para tornar Mar-a-Lago um clube privado, em 1993. “Não há comparação com nenhuma outra propriedade em Palm Beach, nos Estados Unidos ou mesmo no mundo. Para usar uma expressão jurídica, em latim, ela é sui generis.”

Trump tinha que apostar alto porque - seis anos depois de escrever A Arte da Negociação - ele tinha um megaempreendimento para vender para Palm Beach, uma cidade conhecida por proteger agressivamente propriedades históricas. A proposta dele de transformar sua casa em um clube foi feita com um nefasto alerta, feito por um de seus advogados, durante uma longa reunião na prefeitura da cidade. “Mar-a-Lago não pode ser preservada eternamente como um lar de família.”

Os funcionários da prefeitura e alguns moradores de Palm Beach se preocupavam com a associação de Trump com os jogos de azar em Atlantic City, onde suas operações de cassino e hotelaria resultaram em fiascos épicos. Mas o advogado de Trump, Paul Rampell, garantiu à prefeitura que seu cliente “era digno de confiança”.

Inicialmente, Trump queria transformar Mar-a-Lago em um “clube patrimonial”, no qual os sócios comprariam cotas e seriam, essencialmente, sócios. Mas isso não funcionaria, afirmaram funcionários da prefeitura. Se o clube falisse, a cidade não queria ter de lidar com uma horda de proprietários. Preferia que uma única pessoas fosse responsabilizada: Donald Trump.

Então Trump começou a fazer promessas. Seu advogado garantiu à prefeitura que ele não moraria em Mar-a-Lago e usaria as suítes para convidados por somente 21 dias ao ano, como qualquer outro sócio. No pedido de Trump, ele também tranquilizava os preservacionistas afirmando que não estava pedindo para construir novas estruturas ou novas placas.

O acordo final afirmou que não haveria barracas. E nem circos -- pelo menos não do tipo que envolve animais.

Mas, pouco mais de um ano depois da badaladíssima inauguração da propriedade reformada, em 1995, Trump tentava se livrar de grande parte do que havia prometido. Quis eliminar o limite de estadias em suas suítes para convidados - estabelecido porque os vizinhos se preocupavam com a possibilidade de viver ao lado de um hotel. Quis também abolir o limite de 500 sócios.

Quando não conseguiu o que queria, entrou na Justiça.

E, mesmo derrotado no processo judicial, com o passar dos anos, ele geralmente foi conseguindo o que queria. A prefeitura cedeu ao pedido para permitir barracas. Deixou que ele construísse um pavilhão de eventos.

Quando Trump não conseguia obter permissões, ele frequentemente seguia em frente com o que desejava fazer sem o aval oficial.

Quando ele ignorou novamente a regra contra fotos de revista, em 1999, a prefeitura convocou procedimentos formais para processar a infração.

Ele foi multado em US$ 50.

Uma das maiores promessas de Trump foi a de não construir uma doca, mas, no segundo ano de funcionamento do clube, ele colocou em prática um furtivo plano para construir o atracadouro mesmo assim. Ele se dirigiu diretamente ao Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e ao departamento de proteção ambiental do Estado da Flórida para obter autorização para uma marina com capacidade de atender 120 barcos, que exigiria a dragagem de 460 mil metros cúbicos de material e surtiria impacto em 9,7 hectares na margem do Lago Worth em seu clube, incluindo um potencial dano a valiosos recifes de corais.

Tudo isso era novidade para a prefeitura de Palm Beach.

A prefeitura impediu, por fim, o plano da marina. Agora, quase um quarto de século depois, ele tenta novamente construir uma doca, mas, desta vez, está acionando a câmara de vereadores da cidade, como deveria fazer. O plano foi paralisado no segundo trimestre do ano passado, quando ele retirou temporariamente sua proposta, após a publicação de um artigo do Washington Post a respeito das restrições em seu acordo original. Mas ele prometeu ressuscitar o projeto.

Se há algo que Trump adora fazer é dar seu nome a edifícios e, em Mar-a-Lago, não é diferente. Preservacionistas ficaram pasmos em 2003, quando brasões de armas ostentando o nome de Trump apareceram do nada nas barracas de praia do clube: ornados brasões de armas gravados com o nome de Trump.

Um preservacionista torceu o nariz, afirmando ao New York Post que eles eram “uma indecorosa e óbvia propaganda”. Trump não tinha obtido permissão das autoridades da cidade, que são famosas por seu zelo em proibir cartazes. Mas Trump protestou, dizendo que os seus seriam difíceis de retirar.

Os brasões de armas continuaram lá.

Concerto de caridade com Elton John gerou protestos

Em 2005, os moradores locais notaram uma mudança. Robert Moore, um dos mais elogiados funcionários públicos da cidade, se aposentou do cargo de diretor de planejamento, construções e zoneamento da prefeitura. Apesar de eles terem se confrontado algumas vezes, Trump e Moore tinham encontrado uma maneira de conviver de maneira amigável.

O novo governo que assumiu em 2006 podia ser menos volúvel, e isso não agradou Trump. Ele estava no auge de seus poderes pré-presidenciais naquela época, ganhando milhões como astro do bem-sucedido reality show O Aprendiz.

Quando Trump excedeu o limite de público em um concerto de caridade de Elton John para levantar dinheiro para pesquisa sobre aids em 2006, a prefeitura o multou em U$ 5 mil. Magoado, Trump reclamou a respeito do “tom áspero” da prefeitura.

“Estou profundamente desapontado com a prefeitura por punir meus esforços de receber um dos mais importantes artistas do mundo para um evento de caridade tão louvável”, escreveu Trump.

Trump e seu advogado desafiaram os planos da prefeitura de exigir um formulário anual declarando que as regras estavam sendo seguidas e seu anúncio de possíveis inspeções sem aviso prévio.

“Para os nossos ouvidos, há um eco fascista neste aviso”, escreveu em uma carta Rampell, advogado de longa data de Trump. Em outra mensagem, ele comparou a exigência do relatório com um "juramento de lealdade da era McCarthy".

A relação estava se deteriorando rapidamente, mas Trump não deixaria de ser Trump. Ele instalou um mastro de bandeira de 24,4 metros de altura em 2007 sem pedir permissão - com quase o dobro do limite de 12,8 metros - gerando comentários sarcásticos entre vizinhos incomodados, afirmando que a bandeira americana hasteada no clube fazia o local parecer uma concessionária de veículos.

A prefeitura precisou impor altas multas diárias e entrar com um processo na justiça para fazer Trump tirar a bandeira, diminuir a altura do mastro e instalá-los em um ponto menos chamativo.

Trump estava começando a se deparar com obstáculos que não conseguia superar. A administração do condado engrossou quando ele entrou com um processo tentando alterar a rota para o aeroporto de West Palm Beach, argumentando que os aviões estavam prejudicando seu clube. Ele abandonou o processo em 2016, mas sabia que sairia parcialmente vencedor: enquanto fosse presidente, os aviões podiam ser proibidos de voar sobre Mar-a-Lago quando ele estivesse lá (Trump está perdendo um de seus privilégios presidenciais - um heliponto em Mar-a-Lago - que não será mais permitido agora que ele deixou o cargo).

Agora Trump mudou seu domicílio oficial para Mar-a-Lago, registrou-se para votar com o endereço do clube e passou a residir lá - apesar de reclamações de alguns vizinhos e ativistas locais alarmados com a possibilidade de ele ser um imã para apoiadores violentos, como os que atacaram o Capitólio no início de janeiro, quando o Congresso estava prestes a formalizar a vitória do presidente Biden nas eleições.

O fator mais típico de Trump a respeito da insistência dele em declarar Mar-a-Lago sua residência é que haveria uma solução simples para a disputa: ele possui três casas nas proximidades, e poderia facilmente usá-las com propósito de domicílio e aparecer em Mar-a-Lago sempre que quisesse. Mesmo que dormisse todos os dias no clube, seria necessária uma vigilância 24h para provar que ele estava residindo lá - um cenário improvável.

Mas ele não arreda o pé.

O que é compreensível, afirmou Jeffrey Greene, um abastado vizinho de Mar-a-Lago, que qualificou a tempestade residencial como “uma briga tola”.

Com tantos advogados fazendo fila para processar Trump, o acordo que ele assinou com certeza será analisado nos mínimos detalhes -- tanto a respeito do que está registrado quando a respeito do que não está. O texto não afirma especificamente que Trump não pode viver no clube, mas também não diz especificamente que ele pode.

O acordo de uso formal com a prefeitura deixa claro que, se Mar-a-Lago deixar de ser um clube, voltaria a ser uma residência destinada a uma única família -- mas não diz qual. O clube é obrigado a revelar essa cláusula para seus sócios, que pagam até US$ 200 mil pelos títulos e algo em torno de US$ 14 mil por ano em taxas, de acordo com um sócio que falou sob a condição de anonimato, para discutir uma transação particular.

O acordo de adesão a Mar-a-Lago é mais explícito: declara que, se Mar-a-Lago deixar de ser um clube, seu espaço será revertido -- especificamente -- na residência de Donald Trump, em vez de dizer simplesmente que seria revertido em uma residência particular.

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