Kevin Lamarque / Reuters
Kevin Lamarque / Reuters

Trump declara emergência nos EUA por epidemia de derivados do ópio

Número de vítimas de overdose nos EUA salta de 29,8 mil, em 2005, para 52,4 mil, em 2015, das quais quase dois terços são provocadas por opioides

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 18h05
Atualizado 26 Outubro 2017 | 21h50

O presidente Donald Trump declarou nesta quinta-feira, 26, que a epidemia de overdose por opioides nos EUA é uma emergência de saúde pública nacional, que no ano passado tirou mais vidas do que acidentes de carro e mortes por tiros. Na população com menos de 50 anos, essa foi a principal causa de morte em 2016, à frente de ataques do coração, câncer e doenças respiratórias.

A medida é menos abrangente do que a “emergência nacional” que ele havia prometido em agosto. Se adotada, ela ficaria em vigor por um ano e significaria o aumento de recursos destinados à ofensiva. A “emergência de saúde pública” vigora por 90 dias e não leva à liberação de novas dotações orçamentárias, que terão de ser transferidas de outros programas. 

+The Economist: Uma injeção de esperança contra as drogas

As mortes por overdose de heroína e de medicamentos à base de ópio foram levantadas em muitos dos encontros com eleitores que Trump teve durante a campanha de 2016, especialmente em áreas rurais que enfrentavam dificuldades econômicas. Suas promessas de combater o problema contribuíram para sua vitória nas primárias republicanas de New Hampshire, um dos Estados mais afetados pela epidemia. 

O número de mortes por overdoses nos EUA passou de 29,8 mil, em 2005, para 52,40 mil, em 2015, quando quase dois terços delas, 33 mil, foram provocadas por opioides. No ano passado, o total de vítimas subiu para 64 mil, das quais 53,33 mil usaram opioides. A cifra é próxima das 58 mil mortes de soldados dos EUA na Guerra do Vietnã. 

As ações divulgadas por Trump decepcionaram Kraig Moss, um cantor de música country que participou de 45 eventos de campanha do presidente em 2016. Há três anos, seu filho Rob morreu de overdose de heroína. Moss deixou de apoiar Trump em março, quando os republicanos apresentaram uma proposta para revogação do Obamacare que eliminava a obrigatoriedade dos planos de saúde de oferecerem tratamento para dependentes de drogas. Hoje, ele disse, em entrevista à CNN, que a emergência declarada por Trump não está à altura de suas promessas de campanha, já que não prevê novos recursos para o combate à epidemia.

Há duas semanas, o presidente assinou um decreto que abriu caminho para que seguradoras ofereçam planos sem as coberturas mínimas previstas no Obamacare, entre as quais tratamento para dependência de drogas.

O muro. Trump usou o anúncio de hoje para falar de outra marca de sua campanha, a construção de um muro na fronteira com o México. “Assombrosos 90% da heroína na América vêm do sul de nossa fronteira, onde vamos construir um muro que nos ajudará muito com esse problema”, declarou, em discurso na Casa Branca. “Meu governo vai aplicar nossas leis de imigração, defender a nossa segurança marítima e proteger nossas fronteiras.”

O presidente deu um tom pessoal ao drama da dependência ao falar de seu irmão mais velho, Fred, que sofria de alcoolismo. “Ele me dizia: ‘não beba’, ‘não beba’”, lembrou. “E, até hoje, eu nunca tomei um drink.” Com o anúncio de hoje, as agências do governo federal serão orientadas a usar todos os recursos a sua disposição para combater a epidemia. 

A principal razão do aumento das mortes foi a ampliação do uso de fentanil, uma droga sintética que, segundo a Casa Branca, é 50 vezes mais potente que a heroína. No ano passado, 20 mil pessoas morreram vítimas de seu abuso. O principal fornecedor de fentanil é a China e Trump disse que discutirá o assunto com o presidente Xi Jinping quando visitar Pequim, no dia 8.

Na semana passada, o Departamento de Justiça iniciou ações criminais contra dois cidadãos chineses acusados de vender o produto pela internet. Ambos operam a partir da China, que não tem tratado de extradição com os EUA. 

Representantes do Departamento de Justiça declararam estar “otimistas” em relação à possibilidade de o governo de Pequim agir contra os acusados. O número de overdoses por fentanil rondava 3 mil a cada ano, desde 2006. A partir de 2014, o total de vítimas subiu de maneira dramática, até chegar aos 20 mil de 2016.

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